Uma viagem de trem com o Maestrick pelo complexo “expresso da vida”; confira entrevista
Postado em 19/01/2026


A banda Maestrick dá continuidade à sua ambiciosa jornada musical com o lançamento de “Espresso della Vita: Lunare” (2025). O álbum serve como o capítulo final de um projeto ousado iniciado em 2018 com “Espresso della Vita: Solare”, utilizando a metáfora de uma viagem de trem para explorar a segunda metade da vida humana, marcada pela noite, introspecção e complexidade.

O álbum foi lançado pela gravadora italiana Frontiers Music, uma parceria que surgiu após o selo ouvir o single “Ethereal” e se interessar pelo disco completo. Segundo o vocalista Fábio Caldeira, a estrutura da Frontiers trouxe um impacto internacional superior aos lançamentos anteriores, oferecendo um planejamento de carreira e alcance global que a banda não teria de forma independente.

Nesta entrevista exclusiva, conversamos com Fábio sobre o processo de composição deste trabalho riquissimo e emocionante. O músico detalha a parceria internacional com a gravadora Frontiers Music, a inclusão de temas históricos sensíveis — como o Holocausto — e a fusão de sonoridades que vai de corais judaicos ao Maracatu. Fábio também revela os bastidores das participações especiais de ícones como Roy Khan e Tom Englund, além de projetar o futuro da banda nos palcos e na literatura.

Saiba mais o que a banda, formada por Fábio, Guilherme Carvalho (guitarra), Renato Somera (baixo) e Christian Oliveira (bateria) tem a nos dizer com esta bela viagem pelo trem da vida.

O conceito da jornada da vida como uma viagem de trem é central na obra da banda. Como essa metáfora foi estruturada ao longo dos dois álbuns e de que forma ela orienta o conteúdo lírico e musical?

Fábio Caldeira – Os dois discos representam uma viagem de trem de um dia. O “Solare” tem 12 músicas, relativas as primeiras 12 horas do dia, do embarque/nascimento até o meio da vida do personagem principal. O “Lunare” representa a segunda metade, com as 12 horas/músicas da noite, de onde o “Solare”parou até o desembarque/morte do personagem já velhinho. Lirica e musicalmente, começa mais leve, infantil, e vai ganhando traços mais complexos e densos.

“Espresso della Vita: Lunare” apresenta um contraste evidente em relação ao álbum anterior, com uma abordagem mais introspectiva. Essa mudança reflete experiências pessoais dos integrantes ou foi uma decisão conceitual desde o início do projeto?

Fábio Caldeira – As duas coisas. Desde o início, sabíamos que no “Lunare” abordaríamos temas mais adultos, complexos e pesados. Ao mesmo tempo, a estética e a forma de se contar a história sempre passa pela lente da experiência pessoal.

A divisão entre “Solare” e “Lunare” nos mostra que há essa representação simbólica entre luz e sombra. Como essa dualidade influenciou as escolhas de arranjos, timbres e ritmos em cada parte?

Fábio Caldeira – Eu penso que a música deve caminhar ao lado do texto, da história escrita. Sendo assim, as paisagens musicais de cada momento dos discos acabam por surgir de forma que a narrativa seja sempre amplificada. E o nosso trabalho é entender como, a partir de quem somos, trazer isso a tona da melhor forma possível.

Vocês lançaram o novo álbum pela gravadora italiana Frontiers Music. Como surgiu essa parceria internacional e qual tem sido o impacto na visibilidade da banda fora do Brasil? Qual a diferença entre lançar com um selo daqui ou de forma independente?

Fábio Caldeira – Nós tínhamos acabado de lançar “Ethereal”, o primeiro single do disco e a Frontiers entrou em contato como nosso manager pedindo para ouvir o disco completo. Eles gostaram muito e assim fechamos. Sobre o impacto internacional, está sendo maior do que já foi nos lançamentos anteriores. Eles tem uma estrutura grande, com planejamento de carreira e entrada em diversas vertentes da industria musical que não chegaríamos de forma independente. Eles tem representantes no mundo todo. 

Canções como “Dance of Hadassah” abordam temas históricos sensíveis, como o Holocausto. O que inspirou a banda a incorporar esse tipo de narrativa no repertório? 

Fábio Caldeira – Nós tivemos a oportunidade de visitar o memorial de Auschwitz-Birkenau na Polônia, durante nossa primeira turnê européia em 2018. Eu me lembro de entrar na van muito emocionado e começar a escrever imediatamente alguns pensamentos. O fato de que as famílias chegavam nos campos de concentração em trens, nos fez refletir que nem sempre as estações serão agradáveis na viagem. E isso precisava ser contado, por respeito, para que não nos esqueçamos jamais daquilo. E tivemos a honra incomensurável de ter o coral Sharsheret, regido pela maestrina Sima Halpern, e composto de senhoras judias sobreviventes ou parentes diretas de sobreviventes do Holocausto cantando nessa música. 

Em termos de produção musical, o álbum apresenta ínumeras camadas sonoras e arranjos sofisticados. Como foi o processo de gravação e quais foram os principais desafios enfrentados? O que mudou neste sentido após sete anos desde o álbum “Solare”, lançado em 2018?

Fábio Caldeira – O processo de gravação foi longo mas muito satisfatório. Além disso, foi nosso segundo trabalho com o Adair Daufembach, ou seja, ele nos conhece muito bem, entende o Maestrick e onde queremos chegar. Sobre o que mudou, eu diria que todos, incluindo o Adair, estavam mais experientes, concientes do que queríamos. E isso se refletiu em cada detalhe do trabalho.

“Agbara” é um exemplo de fusão entre música pesada e elementos da cultura popular brasileira. Como surgiu a colaboração com o grupo Maracatu Movimento Baque Mulher e qual foi o objetivo ao trazer esse tipo de sonoridade para o Metal Progressivo?

Fábio Caldeira – Nós conhecemos o Baque Mulher e a mestra Joana Cavalcante em 2019, através do nosso amigo Eliton Tomasi. Tínhamos sido convidados a participar do Abril Pro Rock, um grande festival em Recife e sugeri que tivéssemos um grupo local de percussão para nos acompanhar em uma das músicas. O Eliton sugeriu o Baque Mulher e a amizade com a mestra foi imediata. Elas são a primeira Nação de Maracatu do mundo composta por mulheres. Naquela ocasião, elas participaram das músicas “Penitência” e “Pescador” no show. Foi o ponto alto, e queríamos repetir, mas com uma música nova, composta pensando nelas também. Daí surgiu a “Agbara”. O objetivo é sermos quem somos com as referências que temos. Ela é muito influenciada por Hermeto Pascoal e Tom Jobim.

Além do grupo de maracatu, o disco também conta com participações de artistas renomados do cenário internacional. Como se deram essas parcerias e qual foi o critério para selecionar os convidados?

Fábio Caldeira – Assim que começamos a trabalhar com nosso manager Milton Mendonça, ele sugeriu que trouxéssemos nomes conhecidos que funcionassem artisticamente mas também comercialmente, trazendo mais holofotes ao disco. Como o Milton é muito respeitado e tem acesso a grandes nomes do Metal mundial, nos convencemos de que o Roy Khan, o Tom Englund e o Jim Grey seriam perfeitos e é claro que estamos muito felizes e honrados por terem participado.

A faixa “The Last Station” encerra o álbum de forma longa e cinematográfica. Como vocês definiram o papel dessa música dentro do conjunto da obra?

Fábio Caldeira – A primeira sessão dela foi uma das primeiras coisas que eu compus para o “Espresso Della Vita” há mais de 10 anos atrás. Nós sabíamos que ela seria uma música grande e que tinha esse sentimento de encerramento. Então, assim como “Ethereal”, “Ghost Casino” e “Boo!”, ela esperou para ser lançada no “Lunare”.

Em tempos de consumo rápido e superficial de música, vocês optam por obras conceituais e longas. Como avaliam os riscos e as recompensas dessa escolha em termos de alcance e recepção do público?

Fábio Caldeira – Estamos apenas sendo o Maestrick. Acho que o maior risco é você deixar de fazer o que acredita em prol de um possível resultado que você nem sabe se vai acontecer. Queremos olhar para trás daqui a uns anos e estarmos em paz e orgulhosos do que fizemos e da forma que fizemos. Eu não sei como faremos nos próximos trabalhos, estamos realmente abertos ao que tiver que ser. Obviamente não vamos ignorar o mercado e a forma que as coisas estão hoje, mas as escolhas nunca podem ser em detrimento da arte.

A arte gráfica do álbum foi desenvolvida por Juh Leidl, com um estilo claramente alinhado ao conteúdo lírico. De que forma trabalharam o processo de comunicação entre banda e artista na concepção visual do projeto? Em tempos de I.A., ter alguém assinando uma obra tão bonita é a cereja do bolo…

Fábio Caldeira – A arte Juh é uma extensão do que fazemos musicalmente. A sinergia com ela é maravilhosa, desde o primeiro momento que trabalhamos juntos. Temos muita admiração por ela e foi uma honra gigante, ter uma artista desse calibre transformando nossas músicas em artes tão lindas.

Entre o primeiro álbum e o atual, o som da banda evoluiu significativamente. Como vocês avaliam essa trajetória e quais elementos permanecem como base da identidade musical do grupo?

Fábio Caldeira – Estamos sempre buscando evoluir, somos muito curiosos, ensináveis e nossos maiores críticos. Sabemos onde queremos chegar e cada disco foi como um álbum de fotografia de quem éramos, do que pensávamos. São como capsulas do tempo. Somos muito gratos por tudo o que tivemos oportunidade de viver e realizar até hoje. Acho que a necessidade de honrar nossas raízes e contar as nossas histórias respeitando quem somos são a base da nossa identidade. Saber equilibrar o Maestro com o Tricker, o Artista e o Arteiro.

A banda sempre demonstrou uma tendência à experimentação, misturando estilos e influências. Existe algum limite criativo que vocês impõem a si mesmos durante o processo de composição? Creio que elementos fora do Rock/Metal enriquecem a sonoridade drasticamente. Dito isso, “Rooster Race”, do “Solare”, é uma das minhas músicas preferidas daquele álbum, trazendo viola caipira.

Fábio Caldeira – Não existe nenhum limite criativo no nosso processo. Se a mensagem for definida, usaremos as ferramentas necessárias, musicais ou não, para materializá-la. Sobre a “Rooster”, muito obrigado. Ela representa muito a imagem que eu tinha na minha infância aqui no interior. A propósito, você sabia que ela tem um coro de galinhas escondido no verso depois do primeiro refrão?

Vocês acreditam que o Maestrick pertence a alguma cena ou movimento dentro do rock ou do metal brasileiro, ou preferem se posicionar de forma independente nesse cenário?

Fábio Caldeira – O Maestrick é uma banda de brasileiros que trabalha para levar sua arte ao maior número de pessoas possível. Miramos alto sabendo o que isso exige. Estamos fora de quaisquer rótulos que nos limitem.

A estrutura narrativa do álbum remete à ideia de um roteiro. Existe o interesse da banda em adaptar esse conteúdo para outros formatos, como audiovisual ou espetáculos multimídia?

Fábio Caldeira – Desde o primeiro momento da banda, sim. Eu tive a honra de escrever o livro do primeiro disco solo do Edu Falaschi, e estou escrevendo os dois seguintes para completar a trilogia. Assim que finalizar, pretendo lançar os livros dos conceitos do Maestrick.

Considerando o tempo de maturação entre os lançamentos e a consistência do trabalho apresentado, como vocês veem o futuro da banda e quais os próximos objetivos a curto e médio prazo? Um novo álbum está nos planos da banda?

Fábio Caldeira – Nossa prioridade agora é levar a Lunare Tour ao maior número de lugares possíveis e não demorar nunca mais, mais que três anos para lançar um novo álbum.

Obrigado pelo tempo cedido! Algo a acrescentar?

Fábio Caldeira – Eu é que agradeço. Para vocês que quer se aprofundar no conceito do “Lunare”, temos um documentário de mais de uma hora, explicando faixa a faixa. Muitas curiosidades e detalhes das gravações e produções. Nos sigam nas redes sociais e um grande abraço a todos!

Siga a banda: https://www.instagram.com/maestrickofficial

 

 
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