
Foto: Ana Days
O tecladista e compositor Rafael Agostino falou sobre o projeto Hall of Gods e o álbum “A Tribute to the Gods of Music”, no qual recria obras de Mozart, Beethoven, Bach, Carlos Gomes e Grieg sob a ótica do Heavy Metal, com participações de nomes como Zak Stevens, Ralf Scheepers, Ronnie Romero, Chris Caffery e Snowy Shaw. O músico explicou que a proposta vai além da fusão de estilos: “tentei enfatizar mais o peso e o lado sombrio da música clássica ao invés do virtuosismo”, disse. Além das adaptações musicais, o disco também aborda questões sociais, como na faixa inspirada em “O Guarani”, de Carlos Gomes, gravada com Pompeu (Korzus) e May Puertas (Torture Squad). Agostino ainda revelou que já trabalha em um segundo álbum e planeja levar o projeto aos palcos em 2026.
O álbum “A Tribute to the Gods of Music” soa como uma verdadeira carta de amor à Música Clássica e ao Heavy Metal. De onde surgiu a ideia de unir esses dois mundos em um projeto tão ambicioso como o Hall of Gods?
Rafael Agostino: A ideia foi justamente fazer esse tributo aos compositores e ir além de apenas mesclar os dois estilos, as letras também falam sobre os mestres da música, ou sobre suas vidas, ou alguma obra específica, tentei enfatizar mais o peso e o lado sombrio da música clássica ao invés do virtuosismo. A ideia do conceito do álbum foi bem natural, de cada música ser sobre um compositor e ter um convidado diferente em cada faixa, o desafio foi manter o mesmo estilo e identidade com vocalistas tão diferentes.
A relação entre Metal e Música Clássica não é nova – bandas como Deep Purple, Rainbow, Therion, Haggard, e, claro, o Trans-Siberian Orchestra exploraram bastante essa fusão. Ainda assim, quando feita com seriedade e bom gosto, sempre impacta. Como foi o processo de adaptação e reinterpretação dessas obras eruditas apresentadas no EP sob a ótica do Metal?
Rafael Agostino: Todas as bandas que você citou incluindo o Symphony X e o Rick Wakeman que é mais voltado ao Rock Progressivo, foram grandes influências, assim como o Black Sabbath e King Diamond que também de uma forma mais indireta abordaram essa influência clássica voltada para o lado mais sombrio. Alguns trechos dessas famosas obras que eu inseri foram bastante modificadas, inclusive mudando até a tonalidade… Muitos trechos originalmente feitos em escala maior, trazendo uma sensação de alegria e grandiosidade, eu modifiquei para o tom menor, reverenciando o lado melancólico e mais profundo, como foi no caso de vários trechos, bem como “Einekleine” do Mozart, “Jesus Alegria dos Homens” do Bach, que inclusive inspirou o título da faixa, adaptando a letra para, “A alegria do diabo é o desejo do homem”, essa mudança também no título sintetiza bem essa adaptação das tonalidades, trazendo a influência do Heavy Metal sob meu ponto de vista. A famosa “Nona Sinfonia” do Beethoven também sofreu essa adaptação, o legal disso é que mesmo quem é leigo na música percebe que tem algo diferente mas reconhece exatamente cada trecho das obras reverenciadas, esse trabalho de adaptação de tons, não é tão simples quanto parece, ele mexe em toda estrutura da harmonia e das notas da melodia e toda essa mudança acabou também sendo um diferencial do projeto, do que simplesmente tocar as músicas clássicas do mesmo jeito da partitura mas com instrumentos do Metal. No livreto do disco eu menciono cada faixa utilizada também, como se fosse uma bibliografia do que foi usado.

Foto: Tainá Lossehëlin
O disco apresenta releituras de grandes compositores da música clássica: Mozart, em “The Requiem”; Beethoven, em “Madness by the Moonlight”; Carlos Gomes, com “Guarany (Sons of the Forest)”; Edvard Grieg, em “Emperor of Himself”; e Bach, com “Devil Joy of Man’s Desiring”. De que forma você escolheu essas peças e o que buscou preservar ou transformar em cada uma delas?
Rafael Agostino: Acho que o mais inusitado foi a escolha do Grieg, compositor norueguês, que influenciou diversas bandas com sua suíte “In the Hall of The Mountain King”. Savatage, Helloween e várias outras bandas fizeram versões dessa peça, mas ao mesmo tempo ninguém havia feito nenhuma versão com seu concerto de piano, que é uma obra fantástica e muito famosa e casou perfeitamente com o Metal. A escolha dos compositores foi bem natural também, além de serem os mais famosos e meus preferidos. A escolha dos trechos usados é bem seletiva, todos os temas têm que ter o andamento parecido, se não as músicas teriam muitas mudanças de tempo e não ficaria tão fluída, mas sempre tem um pequeno ajuste de tempo, tons e por fim as vezes até de arranjos.
A faixa de abertura, “The Requiem”, conta com a participação de Zak Stevens, vocalista do Savatage, banda cuja influência é evidente no álbum, especialmente nos arranjos e no uso de pianos em contraste com guitarras pesadas. Como foi trabalhar com Zak e o quanto o Savatage influenciou diretamente a identidade musical do Hall of Gods?
Rafael Agostino: “The Requiem” foi o primeiro single lançado, e quando o Zak gravou eu não tinha ainda nem o nome do projeto nem todo conceito pronto, ele me ajudou muito nesse início, dando ideias e ajudando na letra, senti como membro da banda, eu cheguei até a convidá-lo para ser o único vocalista, isso em 2023, mas naquela altura o Savatage já estava planejando o retorno, então ele disse que até por questões contratuais ele não poderia se envolver em nenhum outro projeto, então percebi que cada faixa teria que ter um vocalista, mas fiquei muito feliz com a notícia de que uma das minhas bandas preferidas estava voltando… E essa turnê de retorno do Savatage começou justamente pelo Brasil, então foi muito legal esse encontro com eles, Zak e sua esposa expressaram toda admiração pelo projeto pessoalmente, Zak disse que consegui unir o estilo do TSO com o Savatage de uma forma perfeita e sua esposa falou que a faixa “The Requiem” era uma das melhores músicas que o Zak já gravou, eu fiquei completamente sem reação…A influência do Savatage realmente é bem nítida, mas tem várias outras bandas como Paradise Lost, Mercyful Fate que acabam transparecendo em alguns momentos também. A união do piano e da guitarra (que são meus instrumentos preferidos) sempre me fascinou, nas músicas do Queen, depois com o Sava, Van Halen em músicas como “Right Now” e tantas outras.
Assista ao vídeo clipe de “Guarany (Sons of the Forest)”:
A faixa “Guarany (Sons of the Forest)”, inspirada em “O Guarani” de Carlos Gomes, é não só um tributo à música clássica brasileira, mas também uma denúncia à violência contra povos indígenas. Como surgiu essa abordagem mais crítica e social dentro do álbum?
Rafael Agostino: O álbum tinha que ter pelo menos um compositor brasileiro e uma faixa com temática mais crítica, mas inicialmente eu havia feito uma música tributo ao Villa-Lobos com uma letra reverenciando a Amazônia e também uma crítica a toda devastação dessas terras. Acontece que Villa ainda não é domínio público e não consegui a liberação das editoras a tempo, então tive apenas 2 semanas para fazer uma nova música tributo a Carlos Gomes e aos povos originários Guarani. Fiquei bem feliz com o resultado, pois além de juntar duas pessoas que admiro muito como o Pompeu e a Mayara, consegui gravar o vídeo na aldeia Tekoa Pyau dos Guaranis. Devido a colonização sangrenta, eles sofrem essas consequências até hoje, é uma luta constante para manter leis que eles conquistaram sobre suas próprias terras. Em janeiro desse ano a ópera “Guarani” foi exibida no Teatro Municipal de São Paulo com concepção geral do escritor/filósofo indígena Ailton Krenak, modificando inclusive alguns trechos do libreto, que é a história da ópera, claro que teve uma pequena parcela do público criticando essa mudança falando que era heresia modificar uma obra clássica, mas heresia maior para mim é deixar de evoluir ou pior que isso, normalizar preconceitos.
Para muitos brasileiros, “O Guarani” de Carlos Gomes é imediatamente reconhecível por ter sido por décadas a abertura do programa A Voz do Brasil. A sua versão, em “Guarany (Sons of the Forest)”, preserva esse impacto emocional, de memória, mas traz uma nova camada de peso. Você pensou nessa referência popular ao compor a faixa? Como foi transformar algo tão enraizado no imaginário nacional em uma peça épica de Metal?
Rafael Agostino: Na verdade tive bastante receio em utilizar essa obra, justamente por ter essa referência tão popular aqui no Brasil, o tema é épico por si próprio, é uma melodia muito boa, mas assim como a “Para Elise” do Beethoven que virou o tema do gás aqui, foi um risco das pessoas não gostarem, mas foi um dos desafios, contextualizar esses trechos na música de uma forma natural, muitas pessoas me disseram que essa foi a faixa preferida, isso me deixou muito feliz, porque além do compositor reverenciado ser brasileiro, os convidados também, isso mostrou que o Brasil perdeu de fato aquele estigma, que o gringo é melhor.
Participações especiais como Ralf Scheepers, Chris Caffery, Ronnie Romero, May Puertas, Marcello Pompeu e Snowy Shaw elevam o nível do trabalho. Como foi reunir esse time tão diverso e talentoso? Houve algum desafio particular nesse processo colaborativo?
Rafael Agostino: Eu fiz o convite para diversos cantores, como Jorn, Messiah Marcolin, Blaze Bailey, Tony Martin, D.C. Cooper, então o primeiro desafio era aguardar uma resposta, alguns responderam no mesmo dia, outros não visualizaram até hoje (risos). Caras como o Chris Caffery, Snowy Shaw e o já mencionado Zak Stevens, foram realmente incríveis, o Chris fez um post me agradecendo pelo convite, e por ter convidado ele a fazer parte da minha história musical, o Snowy compartilhou em suas redes até as músicas que ele não gravou, me enviou também seu livro autobiografia de presente, considero que cada um que aceitou o convite, eles tenham me escolhido também, dedicaram tempo e mostraram verdadeiro apreço ao projeto. Todos extremamente profissionais também, enviaram as gravações muito rápido, o Ralf tinha o tempo bem curto, ele gravou a música de um dia para outro e já mandou tudo pronto, mixado, da mesma forma que ele costuma entregar ao Avantasia, conforme ele mencionou.
A estética visual também chama atenção – desde a capa assinada por Rômulo Dias até a edição limitada em vinil. Como foi pensada essa parte gráfica e por que a opção por lançar também em formato físico, mesmo em tempos tão digitais? Pelo que vi, a versão em vinil ficou lindíssima…
Rafael Agostino: Tudo foi feito com muito esmero, a escolha do Rômulo em fazer a capa foi muito certeira, também optei em fazer a mixagem e a masterização por aqui, não só por valorizar os profissionais que temos no Brasil, mas realmente curto o trabalho deles, no caso o Henrique Canalle na mix e o Alessandro Morgado na master e quando digo profissional, não basta ser bom no que faz, tem que saber respeitar prazos, ser comprometido, tive a sorte de ter pessoas incríveis na finalização desse projeto, bem como o Lucas e Carol da gravadora Abigail Records, que já é especializada em lançamentos especiais em vinil, foram inúmeras alterações e revisões da arte gráfica, é um trabalho que precisa de muita paciência também. O Rômulo havia feito também a capa dos singles, com os compositores e algumas referências sobre os temas das músicas, então a gente acabou trazendo todas essas artes, inclusive todos os convidados autorizaram utilizar fotos estilizadas no álbum, acabou que o encarte ficou com 12 páginas, é uma versão gatefold, vinil 180 gramas, importado, nas versões em preto, laranja e azul marble. Ainda esse ano deve sair também uma versão em CD, devido ao sucesso de venda da mídia física, o vinil teve a primeira remessa de quase 50 cópias esgotada logo no primeiro mês, a loja Die Hard na galeria do Rock falou que foi o segundo vinil mais bem vendido do ano na loja, a praticidade do digital é muito legal, mas a intenção de ter feito uma edição especial, foi justamente resgatar essa experiência do material físico, você aguça quase todos os sentidos ao mesmo tempo, o tato, a audição com um som orgânico, a visão com a capa, letras e arte gráfica e até o olfato com o cheiro do material, só faltou o paladar (risos).
Por fim, quais os próximos passos do Hall of Gods? Você planeja transformar este projeto em uma série de álbuns, talvez abordando outros compositores ou temas históricos, ou foi pensado como uma obra única e conceitual?
Rafael Agostino: Já comecei o processo do segundo álbum, inclusive já com o convidado confirmado, ainda esse ano pretendo lançar mais um single, ainda não sei se essa nova música, ou o tributo ao Villa que já está praticamente pronto e é uma das minhas faixas preferidas, ficou com 10 minutos, ela começa como “balada” e depois fica visceral, tem bastante elementos da música brasileira também. Além do segundo álbum, o próximo desafio é levar o projeto aos palcos, estou avaliando algumas condições para tornar isso viável, mas deve ficar para 2026 também.
Rafael, obrigado pela entrevista. Alguma mensagem final?
Rafael Agostino: Eu que agradeço, ótimas perguntas, feitas por quem realmente aprecia música e entendeu a proposta do projeto. Continuem apoiando o que é feito no Brasil e não deixemos que nosso estilo favorito perca forças com a partida cada vez mais frequente dos nossos ídolos, além das últimas turnês anunciadas. Acredito que assim como na música clássica, o Metal será reverenciado daqui 200 anos, mesmo com outros intérpretes, vamos ter que nos acostumar com a ideia de bandas tributos mantendo esse legado, além é claro, de incentivar novas bandas seja comprando material, indo em shows, ou até mesmo dando o play nas plataformas digitais. Vida eterna ao som pesado!
Ouça o álbum:
Maicon Leite atua como Assessor de Imprensa com a Wargods Press e é co-autor do livro Tá no Sangue!, e claro, editor do Arena Heavy!
Tags: Carlos Gomes • Chris Caffery • Haggard • Hall Of Gods • Korzus • Maicon Leite • Ralf Scheepers • Ronnie Romero • Savatage • Snowy Shaw • Therion • Torture Squad • Trans-Siberian Orchestra • Zak Stevens
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