The Hellacopters revê sua transformação em “Cream Of The Crap! Collected Non-Album Works – Volume 3”
Postado em 05/10/2026


Minha primeira (e única) experiência ao vivo com o The Hellacopters aconteceu em 18 de setembro de 2003, no Kaiser Music Festival, realizado no Gigantinho, em Porto Alegre. A programação reunia Deep Purple, Sepultura e os suecos, responsáveis pela abertura daquela noite. Era uma combinação curiosa: uma instituição do Hard Rock britânico, o maior representante brasileiro do Metal e uma banda que havia surgido poucos anos antes, mas já ocupava uma posição importante dentro do Rock europeu. Tudo isso, se não me engano, com o ingresso custando hoje impensáveis R$ 20,00 ou R$ 30,00.

Antes daquele show, obviamente, eu já conhecia o The Hellacopters. Durante a segunda metade dos anos 1990, o grupo provocou um verdadeiro furor entre quem acompanhava Heavy Metal, Punk e Rock de garagem. Parte dessa curiosidade vinha da ligação com o Entombed. Nicke Andersson, então conhecido principalmente como baterista de uma das formações fundamentais do Death Metal sueco, apareceu cantando e tocando guitarra em uma banda de rock barulhenta, rápida e assumidamente ligada a uma sonoridade mais acessível. Para muita gente, inclusive para mim, o primeiro contato com o The Hellacopters ocorreu justamente por causa dele.

“Supershitty to the Max!”, de 1996, e “Payin’ the Dues”, lançado no ano seguinte, possuíam uma sonoridade bastante diferente daquela que a banda apresentaria em Porto Alegre. Eram discos curtos, ásperos e quase sempre acelerados, construídos sobre garage rock, punk, Motörhead, MC5 e The Stooges.

Quando o The Hellacopters chegou ao Gigantinho, essa fase inicial já havia ficado para trás. “Grande Rock”, de 1999, reduzira a velocidade e aumentara a presença do Hard Rock dos anos 1970. “High Visibility”, lançado em 2000, trouxera melodias mais cuidadas, teclados, soul e outra preocupação com os refrães. Em “By the Grace of God”, de 2002, a mudança estava estabelecida. “Carry Me Home”, uma das músicas que recebeu maior resposta do público porto-alegrense naquela noite, pertencia a uma banda bem mais disciplinada do que a responsável por “Supershitty to the Max!”.

É justamente esse período de transformação que reaparece em “Cream Of The Crap! Collected Non-Album Works • Volume 3”. A supercoletânea reúne gravações originalmente publicadas entre 1998 e 2005, retiradas de compactos, EPs, tributos e outras edições hoje difíceis de encontrar. São 24 faixas na versão física e 23 na digital, já que “Sent En Lördagkväll”, do Nationalteatern, ficou restrita ao CD e ao vinil. Robert Eriksson selecionou o material, Henke Jonsson realizou as transferências a partir das fitas e discos disponíveis, e Magnus Lindberg ficou responsável pela remasterização.

O título preserva a ironia utilizada nos dois primeiros volumes, lançados em 2002 e 2004. Pouco do que aparece aqui, entretanto, pode ser considerado sobras propriamente ditas. O problema está menos na qualidade das músicas do que na extensão da coletânea. São mais de 75 minutos de gravações feitas em épocas e situações diferentes, sem a organização narrativa de um álbum convencional. Ouvido de uma vez, o repertório pode se tornar cansativo. Separado em blocos menores, revela vários capítulos importantes da história do grupo.

“Long Gone Losers”, originalmente incluída no EP “Disappointment Blues”, mostra o The Hellacopters ainda bastante próximo de seus primeiros anos. A música trabalha com andamento rápido, guitarras saturadas e uma interpretação vocal sem maiores cuidados de acabamento. “Oh Yeah Allright!”, resolvida em pouco mais de um minuto e meio, segue o mesmo impulso. São gravações que mantêm a espontaneidade dos primeiros discos, quando a banda parecia interessada em chegar ao final da música antes que alguém tivesse tempo de corrigir qualquer imperfeição.

As versões de “Pack of Lies”, do The Nomads, e “American Ruse”, do MC5, ajudam a localizar essa origem. O The Hellacopters não se limita a repetir as gravações conhecidas, mas também não tenta modificá-las de maneira exagerada. A banda reconhece nelas uma linguagem que já fazia parte de seu próprio trabalho. O mesmo ocorre com “455 SD”, do Radio Birdman, e “Ungrounded Confusion”, dos Flaming Sideburns. São músicas pertencentes ao mesmo universo de guitarras distorcidas, compactos de garagem e apresentações em clubes pequenos que definiu a cena escandinava daquele período.

A presença de grupos como MC5, Radio Birdman, The Damned, Ramones e Motörhead confirma o lado mais evidente dessa formação. As escolhas ligadas ao soul, porém, são igualmente importantes. “Little Miss Sweetness”, dos Temptations, “Whole Lot of Shakin’ in My Heart”, de Smokey Robinson, e “A Man and a Half”, de Wilson Pickett, esclarecem de onde vieram algumas influências percebidas a partir de “High Visibility”. Mesmo quando mantém a distorção, o The Hellacopters passa a valorizar o desenho das melodias, as respostas entre voz e instrumentos e refrães menos dependentes da velocidade.

“Get Ready”, também associada a Smokey Robinson, reforça essa relação. A versão não tenta reproduzir o acabamento da Motown. O grupo leva a composição para o terreno das guitarras, preservando o sentido melódico que fez da original um clássico. Essa aproximação com o soul acompanharia Nicke Andersson em outros projetos, especialmente no The Solution, formado ao lado de Scott Morgan. Por isso, a inclusão de “Heaven”, de Morgan, possui uma importância que vai além da simples homenagem.

Outro conjunto de versões indica a progressiva aproximação com o Rock dos anos 1970. “Her Strut”, de Bob Seger, possui um balanço distante da correria dos primeiros álbuns. “I’m Eighteen”, de Alice Cooper, depende muito mais do peso e da repetição do riff do que da velocidade. “Workin’ for MCA”, do Lynyrd Skynyrd, permite que a banda trabalhe com uma estrutura tradicional de Hard Rock norte-americano. Essas faixas ajudam a entender por que o The Hellacopters que tocou no Gigantinho já não correspondia inteiramente à imagem criada em 1996.

Entre as composições próprias, “Disappointment Blues” merece atenção pelo modo como amplia o espaço entre os instrumentos e se afasta da urgência habitual. “Doggone Your Bad-Luck Soul”, com quase sete minutos, vai ainda mais longe. Sua duração permite um desenvolvimento instrumental que dificilmente caberia nos primeiros discos. Já “Ferrytale”, apresentada em uma versão de 1998, registra um estágio intermediário: a agressividade permanece, mas a banda começava a demonstrar maior interesse pela construção das melodias.

Essa passagem entre diferentes períodos constitui a melhor característica da coletânea. Embora as faixas não estejam organizadas cronologicamente, é possível reconhecer a mudança de postura. O grupo que inicialmente parecia decidido a tocar tudo depressa passou a permitir que as músicas respirassem. Os riffs continuaram importantes, mas deixaram de ser o único centro das composições. Teclados, harmonias vocais, referências ao soul e estruturas herdadas do Hard clássico começaram a ocupar mais espaço.

A remasterização reduz parte das diferenças de volume e definição, mas não procura esconder que o material veio de fontes variadas. Essa decisão foi correta. Uma coletânea desse tipo perderia parte do sentido caso todas as faixas fossem submetidas a uma padronização excessiva. As mudanças de timbre, produção e interpretação ajudam a identificar o momento ao qual cada gravação pertence.

Ao retornar àquelas gravações, também fica mais fácil compreender o show que presenciei em 2003. A banda que subiu ao palco do Gigantinho ainda possuía parte da agitação que havia chamado atenção na década anterior, mas já estava envolvida com outra concepção de Rock. “Cream Of The Crap! Collected Non-Album Works • Volume 3” mostra como o The Hellacopters saiu do impacto dos primeiros anos e chegou ao Hard melódico que apresentava no começo dos anos 2000. Para aqueles que quiserem entender um pouco mais daquele período, esta coletânea atende às expectativas.

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