
Quem conheceu o Lost Society por meio de “Fast Loud Death”, lançado em 2013, dificilmente imaginaria a banda chegando a um disco como “Hell Is a State of Mind”. Na estreia, o quarteto finlandês parecia interessado em recuperar o espírito mais irreverente do Thrash Metal dos anos 1980: riffs rápidos, solos abundantes, vocais rasgados e uma postura que remetia à fase inicial de nomes como Exodus, Anthrax e Megadeth. “Terror Hungry”, do ano seguinte, manteve essa pegada mais old school, embora já acrescentasse algumas pequenas mudanças.
A mutação começou a tomar forma em “Braindead”, de 2016. As músicas ficaram mais longas, o andamento perdeu parte daquela velocidade e o groove ganhou destaque. Quando “No Absolution” apareceu, em 2020, já havia pouco sentido em tratar o Lost Society apenas como uma banda de Thrash. Elementos de Metalcore e Nu Metal assumiram posições cada vez maiores, enquanto “If the Sky Came Down”, de 2022, confirmou que o grupo estava disposto a construir outra identidade.
“Hell Is a State of Mind”, sexto álbum da carreira, é o resultado mais radical desse processo. O antigo Thrash ainda sobrevive em determinados riffs e solos, mas agora há programações eletrônicas, vocais Hip Hop, refrões mais pegajosos e arranjos executados pelo Deutsches Filmorchester Babelsberg. O trabalho da orquestra, composta por quarenta músicos, indica o tamanho da produção conduzida por Joonas Parkkonen, responsável também pela (ótima) gravação e mixagem.
A transformação, portanto, não aconteceu entre um disco e outro. O Lost Society passou mais de uma década desmontando gradualmente a fórmula dos primeiros anos. O erro seria ouvir o novo álbum esperando um retorno ao som old school de “Fast Loud Death”. Essa banda continua existindo nos registros antigos, mas já não corresponde aos interesses atuais de Samy Elbanna e seus companheiros.
A própria “Afterlife” deixa essa situação evidente. O estilo de cantar de Samy é mais moderno, as guitarras trazem pausas e acentos rítmicos, enquanto arranjos eletrônicos e cordas participam da construção do tema. O refrão, melódico, está muito distante dos ataques Thrash que apresentaram o quarteto ao público. Ainda assim, certos desenhos de guitarra preservam algo da personalidade desenvolvida no início da carreira. “Blood Diamond” segue nessa proposta. A música surgiu a partir de uma melodia criada por Samy sobre uma batida de Hip-Hop e acabou determinando boa parte da direção do álbum. A entrada das cordas trouxe uma dimensão que se tornaria recorrente nas demais faixas. A aproximação com o Avenged Sevenfold da década passada é perceptível, principalmente na combinação entre orquestra, guitarras pesadas e um refrão de alcance imediato. O Lost Society, porém, tem muito mais qualidade.
Essa quantidade de informações produz alguns dos melhores momentos do álbum, mas também expõe seu principal problema. Em certas passagens, a banda parece determinada a incluir todas as ideias disponíveis, mesmo quando a música já encontrou seu rumo. “Synthetic” exemplifica essa dificuldade ao reunir eletrônica, Metalcore, refrão Pop e intervenções de guitarra em pouco mais de três minutos. O resultado tem energia e um bom solo, embora a soma dos elementos nem sempre resulte em uma identidade clara.
“Is This What You Wanted” vem em boa hora. Criada a partir de reflexão de Samy sobre os sacrifícios exigidos por uma carreira musical, a faixa começa com voz limpa e violão antes de crescer no refrão. A interpretação revela o quanto o vocalista se modificou desde os primeiros álbuns. Os gritos continuam presentes ao longo do disco, mas já não representam sua única forma de expressão. Samy canta, fala, usa falsetes e muda de registro conforme a necessidade de cada trecho.
A variedade vocal encontra uma das melhores molduras em “Kill the Light”. O belo início acústico prepara a entrada das guitarras, sem revelar antecipadamente todas as mudanças que aparecem depois. Há traços de Heavy Metal tradicional nas melodias e solos, combinados a uma estrutura contemporânea e a um refrão menos agressivo. “Dead People Scare Me (But the Living Make Me Sick)” recupera parte da hostilidade dos trabalhos antigos, ainda que por outros meios. O ritmo marcado, a atmosfera de filme de horror e o vocal próximo do Rap substituem a velocidade que definia o grupo em 2013. Pequenos vestígios de Thrash aparecem nas guitarras, inseridos em uma música construída principalmente sobre groove. Entre as faixas escolhidas para divulgar o álbum, é a que melhor conversa com ouvintes de diferentes fases da banda.
Em termos líricos, o novo álbum examina as consequências do período retratado em “If the Sky Came Down”. Aquele disco registrava uma fase difícil vivida por Samy quase no momento em que os acontecimentos se davam; agora, ele os observa com maior distanciamento. A abertura situa o personagem após a morte e conduz a história por relações destrutivas, vícios, autossabotagem e diferentes formas de crueldade. A faixa-título encerra essa história em quase cinco minutos. Violinos, passagens galopantes, vocais falados, refrão de orientação Pop e uma breve aproximação com o Black Metal aparecem em sequência.
Arttu Lesonen continua sendo um parceiro importante para Samy nas guitarras, sobretudo nos momentos em que os solos devolvem ao disco um pouco da linguagem do Metal tradicional. Mirko Lehtinen e Tapani Fagerström sustentam as frequentes mudanças de andamento sem deixar furos. A produção dá espaço para a cozinha, mesmo diante da quantidade de cordas da orquestra, teclados, programações e vozes sobrepostas.
A ideia geral sobre “Hell Is a State of Mind” está menos no “abandono” do Thrash e mais na maneira como o Lost Society tenta se estabelecer após essa ruptura. A banda dos primeiros dias era veloz, espontânea e claramente ligada a uma tradição. A formação atual prefere juntar Metal moderno, eletrônica, orquestra e melodias acessíveis. Entre uma fase e outra existe uma longa sequência de decisões, não uma mudança oportunista realizada de última hora. Cabe ao ouvinte escolher qual versão da banda prefere. “Hell Is a State of Mind”, de uma forma ou outra, tenta conciliar todos os seus períodos. É o registro de uma banda que finalmente assumiu as consequências de sua transformação, com resultados por vezes exagerados, em outros momentos muito bem executado, mas raramente indiferentes. Se você tem a mente aberta e curte uma pegada mais moderna, ouça sem medo. A cada audição, você descobrirá músicas muito boas, ao mesmo tempo em que certos trechos parecem meio dispensáveis. Enfim, é um trabalho de qualidade e dificil de rotular.
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Maicon Leite atua como Assessor de Imprensa com a Wargods Press e é co-autor do livro Tá no Sangue!, e claro, editor do Arena Heavy!
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