
Ela surgiu do nada, afetando as famílias aos poucos. Entretanto, a maioria das pessoas achava que não era grave, que sairia ilesa. “Fiquem em casa”, diziam. Não adiantou: igrejas e bares continuaram lotados, como se nada estivesse acontecendo. Com o tempo, mais e mais casos surgiam, e a população morria aos milhares, sendo enterrada praticamente como indigente, sem a despedida familiar e sem a dignidade merecida. As aglomerações não cessavam e, quando a doença dava uma trégua, os habitantes achavam que estava tudo bem e voltavam a se abraçar pelas ruas, sem medo algum. Os picos de mortalidade subiam e desciam, exigindo medidas extraordinárias para sepultar tanta gente. Séculos depois, covas coletivas foram descobertas aos montes, com as ossadas amontoadas assim como em vida.
Em que ano estamos? 2020? 2021? Não. 1665, o ano em que a Grande Peste de Londres dizimou pelo menos 20% de sua população (que, na época, estimava-se em 93 mil habitantes). Ou seja, quase 18 mil pessoas pereceram diante da praga na capital britânica. Em toda a Inglaterra, os óbitos somaram de 75 a 100 mil vítimas entre 1665 e 1666. No parágrafo acima, se trocarmos “bares” por “tavernas”, o cenário é idêntico. É impossível dissociar a leitura dos fatos daquele período dos dias da pandemia.
Toda essa história, de tom tão contemporâneo, foi relatada no livro “Um Diário do Ano da Peste”, do autor Daniel Defoe. Embora tivesse apenas cinco anos de idade durante o pico da epidemia, ele romanceou os acontecimentos da época com precisão. A narrativa ocorre em primeira pessoa, creditando o diário a uma testemunha ocular que, reza a lenda, pode ter sido seu tio, Henry Foe. Enquanto Defoe escreveu anos depois, misturando jornalismo e ficção, a Grande Peste teve também um cronista em tempo real: Samuel Pepys. Administrador naval inglês, ele manteve um diário minucioso durante o caos, descrevendo com choque o desespero de ver as ruas vazias, as portas das casas marcadas com cruzes vermelhas e o som ininterrupto dos sinos tocando pelos mortos.
Um trecho muito interessante da obra de Defoe:
“Muitíssimos charlatões também morreram, aqueles que cometeram a loucura de acreditar em seus próprios remédios que, sendo conscientes de si mesmos, sabiam não servir para nada. Antes fizessem como outros tipos de ladrões que reconheciam sua culpa fugindo da justiça, pois não podiam esperar mais do que o castigo que sabiam merecer.”
Epidemias na Europa eram comuns, e a doença em questão era causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida pelas pulgas dos ratos. A Grande Peste teve um impacto menor do que a Peste Negra — que assolou a Europa na Idade Média, entre 1347 e 1353 —, mas os números de letalidade ainda são absurdos. Ironicamente, a praga só encontrou um fim definitivo no ano seguinte devido a outra catástrofe: o Grande Incêndio de Londres de 1666, que devastou a cidade, mas acabou exterminando os ratos e as pulgas infectadas que propagavam o mal.
Antes disso, uma das soluções que o rei inglês Carlos II estabeleceu foi proibir a circulação de pessoas, decretando várias políticas públicas para que a doença não avançasse com tanta voracidade. Contudo, o próprio monarca fez as malas, subiu em uma carruagem com a família e fugiu de Londres, refugiando-se no interior, em Salisbury. A corte e os nobres fizeram o mesmo, deixando a classe trabalhadora trancada na capital junto com a doença. Quem tinha recursos escapava; quem não tinha, virava estatística nas covas coletivas. Além da fuga dos ricos, houve o recrutamento obrigatório de coveiros e um auxílio precário à população mais carente, evidenciando a enorme disparidade social da época.
A leitura do livro (edição de 2014, pela Artes e Ofícios), realizada no final de 2020, em pleno pico da pandemia por qual passamos, foi empolgante e, ao mesmo tempo, impactante por se tratar de um assunto idêntico ao vivido durante a própria pandemia da COVID-19. As atitudes contemporâneas ecoam fortemente os relatos literários, onde o desprezo pela vida alheia e pela própria segurança era algo corriqueiro: tavernas e igrejas apinhadas de gente, mortos aos milhares, remédios sem eficácia comprovada, entre outros. O personagem principal sobreviveu justamente por optar pelo isolamento em casa, embora tenha dado algumas escapadas pontuais. No fim das contas, diante de tantos exemplos históricos de epidemias, fica a sensação de que não aprendemos nada. Hoje, mesmo com toda a ciência de que dispomos (e que inexistia naquela época), ainda sobram negacionistas que se recusam a aceitar os fatos.
O Brasil de 2020 parecia a Londres de 1665. É a história sempre se repetindo.

Ilustração de 1835
A ilustração acima retrata o pastor quaker Solomon Eagle, de cabelo e barba desgrenhados e nu (exceto pelas calças), caminhando pelas ruas de Whitechapel. Com os braços erguidos e um braseiro em chamas sobre a cabeça, ele denuncia os pecados da cidade e prevê o apocalipse. Esta imagem foi publicada em 1835 para a obra de Defoe. Segundo o autor, Solomon corria quase nu pelas ruas de Londres com o braseiro na tentativa de purificar o ar.
Conexão Musical
A música pesada sempre bebeu dessa fonte histórica. No disco conceitual sobre Nostradamus, lançado em 2008, o Judas Priest aborda o tema na faixa “Pestilence and Plague”. Sendo o único álbum conceitual do grupo até então, as faixas foram compostas pelo trio Rob Halford, K.K. Downing e Glenn Tipton. Embora tenha bons momentos, o disco é considerado um dos mais fracos da banda. A letra faz referência direta às previsões do próprio Nostradamus:
“Pestes se alastrarão, o mundo ficará menor /
Por um longo período, as terras serão habitadas em paz /
As pessoas viajarão com segurança por terra, água e ar /
Então as guerras recomeçarão.”
Mas o cenário de caos sanitário e morte não se restringe ao Metal tradicional; o tema é um prato cheio para os subgêneros mais extremos. É impossível não lembrar da lendária banda holandesa de Death Metal Pestilence, cujo próprio nome é uma ode atemporal a esse mal. Trazendo esse fato histórico para a cena contemporânea, nota-se como a música pesada absorve os impactos reais para criar sua identidade. Um reflexo perfeito disso é a banda estadunidense PainDemic, cujo nome e agressividade musical dialogam diretamente com esse cenário de dor, tragédia e pandemia que a humanidade, século após século, teima em repetir.
Maicon Leite atua como Assessor de Imprensa com a Wargods Press e é co-autor do livro Tá no Sangue!, e claro, editor do Arena Heavy!
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