Entrevista e resenha Ritualist: O despertar em meio ao ruído da máquina
Postado em 25/05/2026


Em uma era dominada por excesso de informação, algoritmos e identidades artificiais, a banda gaúcha Ritualist surge como uma descarga elétrica contra a anestesia coletiva. Com o álbum Awakening Protocol”, a banda transforma peso, técnica e agressividade em linguagem filosófica. Não se trata apenas de riffs densos ou atmosferas sombrias. Existe uma inquietação pulsando sob cada camada sonora: uma reflexão sobre consciência, tecnologia, identidade humana e os limites entre homem e máquina.

Nesta entrevista, a banda mergulha nos bastidores criativos do novo álbum, fala sobre a repercussão positiva do lançamento e revisita momentos importantes desta nova fase da banda, incluindo a abertura para o Hangar em Porto Alegre e as colaborações especiais que ajudaram a expandir ainda mais o universo sonoro do grupo. Entre distopia e despertar, a conversa percorre temas como autenticidade artística, transformação pessoal, espiritualidade implícita nas letras e o papel do Heavy Metal como ferramenta de resistência cultural em tempos de superficialidade digital.

 Confira abaixo o vídeo da entrevista:

Resenha “Awakening Protocol” – Ritualist

A banda Ritualist já é uma veterana e possui mais de 10 anos de idade, passou por diversas formações e lutas para persistir na difícil cena do metal do Brasil e no RS então, esses desafios são maiores ainda, como todos sabemos bem. Eu já conhecia a Ritualist e já tinha ouvido o excelente primeiro álbum “Tales of Life and Death” (2023), então não foi exatamente “descoberta” do nada. O que aconteceu mesmo foi que quando ouvi o segundo disco, fui surpreendido por uma evolução absurda da qualidade de composição, produção e conceitual das letras. 

OAwakening Protocol” sinceramente me surpreendeu de verdade: mais maduro, mais coeso, mais pesado, mais moderno, com uma identidade muito mais afiada e um conceito que não fica só na intenção, ele aparece na música e cria um fio que vai conectando todas as músicas e aumentando a nossa conexão com cada música que escutamos. Foi aí que eu fiquei animado para ver isso ao vivo, porque quando um disco cresce nesse nível, a pergunta vem automática: “isso se sustenta no palco?”

Para nossa alegria, fico feliz de dizer que ao vivo a banda consegue sustentar o peso e todo clima “cyberpunk” do álbum. E eu tive a sorte de poder conferir em duas situações que dizem muito sobre a fase da banda: no show de abertura para o Hangar no Espaço Marin, e depois no Divina Comédia, onde o álbum ganhou outra camada para mim, porque ali não foi só mais um excelente show que eu pude assistir. 

No pub Divina Comédia, em um dos redutos de maior resistência do Rock Gaúcho, eu tive a honra de cantar ao vivo a parte do Rod Marenna na música “Your Mask”, que também possui a participação mais que especial em um solo do renomado guitarrista e produtor gaúcho Renato Osório.

O convite para cantar veio do Rogério Reis após eu ter gravado um cover de um trecho da música e postado no Instagram(confira aqui). Esse tipo de atitude é uma demonstração de uma mentalidade de união colaborativa que é o que precisamos mais para tornar nossa cena musical mais viva e próspera,  pois é conexão real entre banda e público, o que também foi uma forma simbólica de confirmar a força dessa música e dessa nova fase da Ritualist.

O álbum tem um mérito raro na cena independente: ele não soa improvisado, nem “quase lá”. Dá para perceber trabalho de composição, foco em timbres e uma decisão estética bem definida. A Ritualist escolhe caminhar nessa fronteira entre agressividade moderna e atmosfera orgânica e nostálgica, sem cair na armadilha de virar só barulho ou só “mix bonita saturada de efeitos” que é algo que tem me incomodado bastante nas produções profissionais das bandas modernas. 

O disco sabe quando soar esmagadora no peso, mas também quando sutilizar e focar no clima e ambiente que deixa espaço para o conceito da letra e interpretações viscerais do Ricardo Janke aparecerem. E isso é crucial aqui, porque as letras e o conceito importam, não é um álbum de metal com letras genéricas sem importância

Como vocalista, o que me chamou mais atenção é a forma como a voz se comporta como narrativa, não só como performance. O vocal guia o ouvinte no meio do caos e faz a ponte entre o humano e o artificial. E como o álbum fala de identidade, máscara, tecnologia, alienação e consciência, esse detalhe faz diferença, pois quando a interpretação tem intenção, a mensagem atravessa a massa sonora e conecta com o ouvinte.

A produção também sustenta o peso sem embolar demais, mérito dos anos de estudo e prática incansável do guitarrista e produtor Rogério Reis. O tipo de metal que a Ritualist pratica pede clareza: se a mix parece um lago revolto com lama, o conceito some. Aqui, na maior parte do tempo, os elementos aparecem com organização, e o álbum passa sensação de “corpo”, não de som digital sem sangue. As participações especiais entram com inteligência e propósito, sem aquele efeito de “feat” só para chamar atenção, ou seja, participações fazem sentido e agregam artisticamente pra obra.

Feita essa análise inicial, vamos aprofundar agora a resenha destrinchando faixa por faixa:

1 – Proxy
A orquestração e a introdução narrada já chega criando o clima, e depois o instrumental já entra com tudo mostrando o peso e a qualidade de timbres, uma ótima faixa introdutória de álbum.

2- Evilution
Aqui o bicho começa a pegar. O trocadilho do título é uma ótima sacada, pois traz a sensação de “evolução” da qualidade da banda em relação ao álbum anterior, mas dentro do conceito, mostra como nem toda a evolução pode ser positiva, pois percebemos que a humanidade está evoluindo cada vez mais rapidamente na tecnologia, enquanto fica a sensação que os valores humanos  parecem estar regredindo.  Excelente mistura de metal moderno, thrash metal e blast attacks de bateria estilo black metal, com pequenos trechos de vocal gutural que super combinam com a vibe, ou seja, a banda toda faz um excelente trabalho.

3 – Silicon Heart
Essa é uma das músicas mais representativas do conceito do álbum. O tema humano versus artificial aparece com força, e a composição reforça isso no clima geral: rigidez, frieza, eficiência. Ao mesmo tempo, tem um desconforto emocional por baixo com a aparente linha vocal dissonante do refrão. Recomendo que escutem essa música no excelente videoclipe abaixo, produzido pelo vocalista Ricardo Janke que está se destacando no mercado de produção audiovisual híbrido, unindo elementos de gravação humana com efeitos e animações com uso de inteligência artificial:

4 – Mass_Production
O clima cyberpunk apocalíptico fica ainda mais evidente nessa faixa,. É o tipo de som que combina com a ideia de gente virando número, tecnologia e IA se tornando uma nova religião e personalidade virando produto. Aqui a Ritualist acerta em manter o clima opressor sem perder dinâmica.

5 – Far from Home
Essa música chega pra trazer um respiro e uma espécie de oásis em meio ao caos, mas ao mesmo tempo ainda trazendo uma sensação de melancolia e nostalgia de um mundo que não existe mais. A orquestração, piano e dedilhado de piano trazem uma sutileza que conecta com a sensação de fragilidade e a saudade nostálgica de estar longe do lar, principalmente quando nos desconectamos da nossa essência e o lar interior que é nossa alma. Não é romantização da tristeza, pois tem melancolia aqui, mas tem força também, é tristeza que aprofunda a consciência para buscar a mudança.

6 – Simulacra (com Cristiano Poschi)
A participação do Cristiano Poschi entra do jeito certo: como elemento de atmosfera e identidade, não como “marketing”. A música tem uma aura esquisita e artificial pelo excelente uso dos teclados sintetizadores e ritmo dançante da bateria que ficou incrível. A perfomance do Cristiano Poschi nessa música é extremamente inspirada e uma das melhores que já pude ouvir dele (o que me deixa ainda mais curioso para o iminente novo álbum da Phornax que logo está por vir, você pode conhecer o videoclipe mais recente da música Between Fear and Hope aqui). As guitarras e baixo dessa música criam um clima e um dos melhores riffs do álbum, criando a sensação hipnótica. Destaco também o interlúdio e solo do baixo (façam mais isso, ficou incrível). Você pode conferir a versão ao vivo dessa música no vídeo abaixo:

7 – Protocol Nº24
Essa música tem cara de filme, dando mais profundidade ao conceito de inteligência/arte orgânica versus inteligência/arte artificial. A escolha de executar uma obra erudita instrumental com a roupagem metal foi mais um dos muitos acertos desse álbum.

8 – Your Mask (com Rod Marenna e Renato Osorio)
Os teclados e os riffs já chegam cativando e prendendo nossa atenção, essa é uma faixa que chama atenção tanto pela proposta quanto pelas participações. Rod Marenna e Renato Osorio somam porque a música fala de persona, de personagem social, de desgaste psicológico. O timbre de hard rock do Marenna somou muito para expandir diversidade criativa da música, e o solo do Renato Osório dispensa comentários .

9 – Caught Somewhere in Time (Iron Maiden cover)
Escolha muito inteligente para bônus., pois o tema desse clássico da donzela casa e encaixa perfeitamente com o universo do álbum: tempo, deslocamento, sensação de estar preso em uma engrenagem maior que você. A Ritualist respeita a essência do Iron Maiden e, ao mesmo tempo, aproxima a música do próprio peso e timbre. Destaco a interpretação original vocal do Ricardo Janke que também é um show à parte.

10 – Far from Home (Piano Version)
Essa versão focada no piano e harmonia de vozes fechou o álbum com chave de ouro, porque expõe e amplia ainda mais o núcleo emocional da faixa. Sem a muralha de guitarras, sobra a sensação crua de distância e introspecção. Após ouvir essa faixa, a gente fica reflexivo e com vontade de ouvir mais da Ritualist, espero que não

Avaliação Pessoal: 9,7 / 10 (ou seja, para o meu gosto, o álbum é praticamente perfeito!)

Ouça o álbum inteiro no spotify:

O que faltou para a nota 10?

Nesse bloco eu me coloco na posição de um “produtor”, dando a minha opinião, pensando em pequenos ajustes que poderiam elevar ainda mais os próximos lançamentos da banda, considerando minha experiência de 22 anos como ouvinte e cantor de metal.

Aumentar um pouco destaque das vozes na mix: Como vocalista, acredito que as vozes são a “ponta de lança” de qualquer música, então para o meu gosto pessoal, colocaria as vozes um pouco “mais na frente da mix”.

Diminuir volume da bateria e aumentar o volume das guitarras: na mesma direção do item anterior, pequenos ajustes que poderiam dar um maior destaque para o excelente timbre e riffs de guitarras que são um grande destaque do álbum.

Mais músicas: o álbum é tão bom que acaba com sensação de “quero mais”, o que é um ótimo sinal, mas nos deixa ansiosos para saber: Quando sai novas músicas da Ritualist?

A Ritualist está em uma fase em que dá para sentir a banda entendendo o melhor a própria identidade e em plena evolução e finalmente começando a colher o reconhecimento merecido pela sua qualidade. O Awakening Protocol tem conceito, peso, participações bem colocadas, coragem estética, e o mais importante: tem verdade. Esse tipo de disco não surge do nada, é resultado de um trabalho consistente e cuidadoso.

Conclusão

Sabe aquele momento em que uma banda olha para a própria história e pensa: “Será que ainda vale a pena?”. A Ritualist conhece esse lugar. Foram mais de 10 anos de luta, resistência e insistência dentro da cena metal, mais de uma década carregando riffs, sonhos, frustrações, trabalhos paralelos, portas fechadas e aquela pergunta que corrói por dentro: “E se a gente tiver que desistir?” Mas existe uma diferença entre quem apenas sonha e quem se prepara para quando o portal abrir. Quando a banda estava quase desistindo do sonho de tocar no Bar Opinião, veio o convite da Ablaze Productions para abrir o show da banda Dogma, no dia 29/05. Alguns vão dizer que foi sorte, mas só quem enfrentou a frustração de ter o talento ignorado sabe como é difícil persistir quando o mundo parece não querer escutar e nos valorizar. Mas as vezes, o momento da virada pode acontecer exatamente quando a alma está prestes a apagar a própria chama.

O novo álbum, Awakening Protocol, carrega essa mesma mensagem: em um mundo que tenta transformar pessoas em máquinas, máscaras e desistências silenciosas, ainda existe almas humanas resistindo no meio do ruído da desinformação e mediocridade conformista. A lição é direta: Não deixe a sensação de vazio convencer você a abandonar o que mantém sua alma viva. Estude, se prepare, faça diferente. Não deu certo? Busque ajuda, ajuste a rota. Mas não entregue seu sonho para o desânimo sem lutar por ele até o último riff.

Porque algumas bandas sobem ao palco para provar que a chama ainda vive, e essa chama pode nos inspirar. A Ritualist demonstra que ainda é possível produzir arte intensa, técnica e conceitualmente profunda dentro da cena independente brasileira sem abrir mão da própria identidade. E no centro de toda essa construção permanece uma ideia que atravessa o álbum inteiro: Quanto mais o mundo tenta transformar pessoas em sistemas, mais necessário se torna lembrar aquilo que nos torna humanos.

 
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