Voivod celebra sua vanguarda musical ao lado da Orchestre Symphonique de Québec em “Symphonique”
Postado em 04/11/2026


Alguns discos de Heavy Metal gravados com orquestras costumam esbarrar em um problema: em alguns casos os dois lados apenas dividem o mesmo espaço. A banda segue tocando suas músicas normalmente enquanto cordas e metais preenchem o fundo, apenas preenchendo o espaço sem muita inovação, como o Metallica no primeiro “S&M”. Recentemente tivemos a ótima colaboração entre uma orquestra e o Moonspell nos mesmos moldes, e o resultado ficou soberbo.

Com o Voivod, a história é bem diferente do Metallica. Quando os canadenses subiram ao palco do Grand Théâtre de Québec em 4 de junho de 2025 para tocar com a Orchestre Symphonique de Québec, o repertório casou com naturalidade na música de concerto porque o estilo do grupo sempre esteve próximo da vanguarda erudita do século XX. Mas é sempre bom avisar: assim como seus discos normais, a música do Voivod não é de fácil assimilação para quem ainda não os conhece.

Desde a guinada iniciada na segunda metade dos anos 1980 com “Killing Technology” (1987), “Dimension Hatröss” (1988) e “Nothingface” (1989), o falecido guitarrista Denis “Piggy” D’Amour deixou de lado os padrões convencionais do Thrash Metal. No lugar das quintas paralelas e das escalas previsíveis, Piggy construiu uma linguagem baseada em trítonos, acordes menores com sétima aumentada e cromatismos que deviam tanto ao Rock Progressivo do King Crimson e ao Post-Punk do Killing Joke quanto às tensões rítmicas e harmônicas de Igor Stravinsky e Béla Bartók.

O que “Symphonique” (lançado no Brasil pela Shinigami Records) registra é a continuação dessa vanguarda musical de mais de quarenta anos. O projeto atingiu esse resultado porque Daniel “Chewy” Mongrain, no posto de guitarrista desde 2008, possui formação acadêmica na área e transcreveu nota por nota as linhas originais de guitarra e baixo. Com esse material em mãos, o arranjador Hugo Bégin escreveu as partituras sinfônicas preservando a rispidez do quarteto. Sob a regência da maestrina Dina Gilbert, os músicos clássicos atacam as dissonâncias junto com a banda.

Antes de falarmos sobre a música, é importante citar a belíssima capa criada pelo baterista Away, e o encarte, recheado de fotos do concerto e com um texto explicativo sobre o projeto, além de outras notas.

A abertura com “Experiment”, faixa que inaugurava “Dimension Hatröss”, mostra a proposta bem clara logo nos primeiros compassos. As cordas reproduzem o fraseado angular da guitarra, enquanto madeiras e metais acentuam o clima de ficção científica paranoica conduzido pela voz de Denis “Snake” Bélanger. Em “Holographic Thinking”, tirada de “Synchro Anarchy” (2022), as subdivisões de tempo de Chewy e do baixista Dominic “Rocky” Laroche somam-se aos sopros, mostrando que a fase recente do grupo funciona nesse formato tanto quanto os clássicos dos anos 1980.

O repertório de doze músicas prioriza as composições de estrutura mais aberta e complexa. “The Unknown Knows” e “Into My Hypercube”, ambas de “Nothingface”, destacam o diálogo constante entre os instrumentos elétricos e os naipes acústicos. Na primeira, as trompas e os trombones acompanham o andamento quebrado; na segunda, as linhas dedilhadas de guitarra se multiplicam pelos violinos e violoncelos, mantendo a sensação de claustrofobia espacial da gravação de 1989. Já “The End of Dormancy”, de “The Wake” (2018), que anos atrás já havia ganhado uma versão com seção de metais, encontra aqui seu formato completo.

Um dos momentos mais curiosos do registro aparece no resgate do material mais antigo e agressivo. Em “Forgotten in Space” (de “Killing Technology”) e, principalmente, em “Nuclear War” (do bruto álbum de estreia “War and Pain”, de 1984), a Orchestre Symphonique de Québec encara a fase inicial do grupo. O arranjo de Bégin utiliza a percussão erudita e ataques secos de metais para acompanhar a bateria de Michel “Away” Langevin.

Na parte final, “Tribal Convictions” evidencia o pulso percussivo e repetitivo que tornou a música um dos maiores clássicos do Voivod, com a orquestra seguindo a marcação característica de Away. O encerramento fica a cargo de “Astronomy Domine”, releitura da fase Syd Barrett do Pink Floyd. A faixa, que já era um dos pontos altos de “Nothingface”, cresce no ambiente de concerto e fecha a apresentação de 73 minutos com uma sonoridade volumosa e bem definida na mixagem.

Com mais de quarenta anos de carreira, o Voivod passa longe de usar a estrutura sinfônica para buscar validação fora do Metal. “Symphonique” deu certo porque trata a orquestra como parte da engrenagem estranha, dissonante e inventiva que os canadenses operam desde os anos 1980. É um dos casos mais interessantes neste encontro entre Metal e música clássica/sinfônica.

Adquira o álbum via Shinigami Records:
https://www.lojashinigamirecords.com.br/p-9503981-Vo%C3%AFvod—Symphonique

 
Categoria/Category: Destaque · Resenha de Discos
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