Uma justa e pesada homenagem do Hall of Gods aos deuses da música erudita
Postado em 09/05/2026


Desde que Ritchie Blackmore começou a incorporar escalas renascentistas no Deep Purple e Yngwie Malmsteen escancarou as portas da união definitiva entre guitarra e erudição, o Heavy Metal nunca mais se separou da música clássica. O que bandas como Therion, Symphony X, Stratovarius, Rhapsody e, primordialmente, o Savatage fizeram nas últimas décadas foi provar que o peso das guitarras e a complexidade das partituras orquestrais caminham perfeitamente lado a lado. É exatamente nesta escola que o multi-instrumentista Rafael Agostino fundamenta o projeto Hall of Gods. O álbum “A Tribute to the Gods of Music” atua como um rigoroso trabalho de resgate histórico e musical, onde o músico paulista executa todos os instrumentos e recria obras seculares com arranjos pesados, amparado por um time de vocalistas do alto escalão mundial.

A audição tem início com “The Requiem”, que toma como alicerce a Missa de Réquiem em Ré menor (K. 626), última e enigmática peça deixada inacabada por Wolfgang Amadeus Mozart em 1791. Agostino explora o peso fúnebre e solene da composição original, transmutando seus coros majestosos em riffs imponentes e andamentos marcados. A escalação de Zak Stevens (Savatage, Trans-Siberian Orchestra) para o microfone é um acerto colossal. A voz do americano alcança a dramaticidade exata que a peça exige, recriando as clássicas dobras vocais que marcaram a era de ouro de sua banda de origem. O resultado soa como um autêntico clássico perdido de álbuns fundamentais como “Dead Winter Dead” ou “Streets”.

Logo na sequência, “Madness by the Moonlight” ataca a reverenciada Sonata ao Luar (Sonata para Piano n.º 14), de Ludwig van Beethoven. O desafio de converter uma peça de piano de andamento lento, quase choroso, em Heavy Metal tradicional é superado com sobras. O contraste principal fica por conta de Ralf Scheepers (Primal Fear), que dispara vocal tão característico em cima da melodia sombria. A faixa cresce ainda mais com os solos cheios de feeling do convidado Chris Caffery (Savatage) e com as linhas de Ana Days (Elevenber), que adiciona a textura lírica necessária para equilibrar a agressividade do vocalista alemão.

O ápice absoluto do disco, contudo, atende pelo nome de “Guarany (Sons of the Forest)”. A homenagem recai sobre Antônio Carlos Gomes e sua magistral ópera O Guarani, baseada no romance de José de Alencar e que estreou com sucesso estrondoso no lendário Teatro alla Scala, em Milão, no ano de 1870. Para o público brasileiro, familiarizado com o tema de abertura eternizado pelo programa de rádio A Voz do Brasil, ouvir a grandiosidade orquestral transfigurada em Metal impressiona. Agostino foi cirúrgico ao usar essa obra para também abordar os séculos de massacre contra os povos indígenas do Brasil. Para dar o tom dessa tragédia, a alternância vocal entre Marcello Pompeu (Korzus) e May Puertas (Torture Squad) proporciona um nível de fúria perfeito para a música. Pompeu rasga a garganta com sua assinatura Thrash, enquanto May imprime belíssimos vocais limpos ao lado de linhas extremas que garantem a sensação de desespero à faixa. A introdução com guitarras dobradas prepara o terreno e faz reverência à genialidade do compositor campineiro. É a mais pura erudição brasileira ganhando contornos na música metálica.

Assista:

A viagem cruza o oceano até a Escandinávia com “Emperor of Himself”, calcada nas partituras do genial pianista norueguês Edvard Grieg (famoso pela suíte Peer Gynt). A música adota uma postura altamente teatral e pedia um intérprete fora da curva. O chamado foi atendido por Snowy Shaw (ex-King Diamond, Therion), que despeja sua veia operística e excêntrica no microfone. Shaw cria um clima macabro e imponente, honrando o folclore e o legado nórdico de Grieg de maneira crua e direta.

Encerrando as recriações, “Devil Joy of Man’s Desiring” revisita o virtuosismo de Johann Sebastian Bach, fundindo a complexidade barroca da famosa Tocata e Fuga em Ré Menor a um andamento empolgante de Hard/Heavy. A responsabilidade nas vozes recai sobre Ronnie Romero (Rainbow, Lords of Black), que protagoniza uma performance monstruosa. Com muito drive e alcance admirável, Romero mostra porque é um dos cantores mais requisitados da atualidade, transformando os arranjos seculares em puro rock pesado (dê um Google aí para conferir o currículo do vocalista!).

Com uma produção limpa e cristalina (mixagem de Henrique Canalle e masterização de Alessandro Morgado), todos os instrumentos soam bem equalizados. A bela embalagem física — lançada em vinil colorido pelo selo português Abigail Records — conta com artes de Rômulo Dias e diagramação de Carol Napolitano. “A Tribute to the Gods of Music” vai muito além de um desfile de convidados de luxo, consolidando-se como o tributo de um músico que sabe olhar para os mestres dos séculos passados com reverência, mas sem nunca abaixar o volume das guitarras.

Ouça:

 
Categoria/Category: Destaque · Resenha de Discos
Tags:

TOP