
A história do Tyketto permanece ligada a “Don’t Come Easy”, álbum lançado em 1991 e responsável por músicas como “Forever Young”, “Wings”, “Seasons” e “Standing Alone”. A estreia chegou durante um período de mudanças no mercado fonográfico, quando o Hard Rock melódico começava a perder espaço diante do crescimento do Rock alternativo. O disco não alcançou o sucesso comercial esperado, mas ganhou reconhecimento com o passar dos anos e ainda ocupa uma posição importante dentro do gênero. Naturalmente, cada lançamento posterior da banda acaba comparado àquele repertório.
“Closer to the Sun” é o sexto álbum de estúdio do grupo e o primeiro desde “Reach”, lançado em 2016. O novo material chegou em 20 de março pela Silver Lining Music com lançamento nacional via Shinigami Records, contendo onze músicas em aproximadamente 48 minutos de duração. Danny Vaughn permanece como único integrante da formação original. Ao seu lado estão Harry Scott Elliott nas guitarras, Ged Rylands nos teclados, Chris Childs no baixo e Johnny Dee na bateria.
A mudança de integrantes poderia levantar dúvidas sobre a identidade atual do Tyketto, principalmente pela ausência de músicos ligados aos discos clássicos. Essa preocupação desaparece durante a audição. O estilo continua baseado no bom e velho Hard Rock melódico, com guitarras fortes, teclados bem distribuídos e refrões trabalhados. Harry Scott Elliott dá uma freada nos exageros e contribui com bons riffs, enquanto Chris Childs e Johnny Dee formam uma base precisa. Ged Rylands aparece principalmente nos trechos mais melódicos e nas introduções.
A abertura com “Higher Than High” apresenta o lado mais acessível do álbum. A letra aborda a necessidade de reduzir o tempo gasto nas redes sociais e valorizar situações simples do cotidiano. Uma dica preciosa… O refrão é agradável e os backing vocals ajudam a ampliar a melodia. Ainda assim, a escolha como primeira música e primeiro single parece conservadora. O Tyketto possui composições mais fortes no restante do repertório.
“Starts with a Feeling”, por outro lado, é superior. A guitarra tem maior presença, o andamento é bem conduzido e Danny Vaughn interpreta os versos com naturalidade. O refrão lembra o período inicial do grupo, especialmente pela combinação entre melodia e a pegada instrumental. Teria sido uma opção mais representativa para abrir o álbum. A voz de Danny, diga-se de passagem, está ótima.
O ritmo dá uma brecada em “Bad for Good”, que aposta em um Hard Rock cadenciado e com alguma influência de Blues. Chris Childs aparece com mais clareza no baixo, enquanto Elliott alterna acordes rítmicos e pequenas intervenções entre os versos. Vaughn canta de maneira mais contida, acompanhando a proposta da composição.
“We Rise” começa com uma bela introdução acústica e posteriormente recebe a entrada da banda completa. A estrutura recorda “Seasons”, principalmente pelo contraste entre o início calmo e o refrão mais forte. Parte da música foi composta por Harry Scott Elliott, responsável pelo riff e pela ideia inicial do coro. A primeira metade termina com impronunciável “Donnowhuddidis”. O título incomum combina com uma música mais descontraída, conduzida por um ritmo solto e por uma interpretação menos séria de Vaughn. A guitarra acompanha as frases vocais e ganha maior liberdade durante as passagens instrumentais. A mudança de andamento também evita que o início do álbum fique concentrado apenas em músicas de médio andamento.
A composição-título inicia a parte mais interessante do disco. Danny Vaughn explicou que “Closer to the Sun” foi inspirada em Penny Lane, personagem interpretada por Kate Hudson no clássico filme Quase Famosos. A letra descreve basicamente o interesse por uma mulher de comportamento livre, observada por alguém que começa a questionar as próprias escolhas. Os teclados criam uma atmosfera diferente das músicas anteriores e a guitarra utiliza notas mais prolongadas. Vaughn interpreta a letra com cuidado e evita forçar o refrão. É a melhor composição do álbum, tanto pela melodia quanto pela maneira como letra, voz e arranjo foram combinados.
O Tyketto escolheu uma gravação pouco conhecida do Roxette para o único cover presente no repertório. “Harleys & Indians (Riders in the Sky)” conserva a característica Pop da composição original, mas recebe guitarras mais fortes e um andamento acelerado no trecho final. A escolha também foge das músicas geralmente lembradas quando se fala no grupo sueco. Essa música aparece apenas no CD e nas plataformas digitais. A limitação de espaço impediu sua inclusão no vinil. A ausência interfere na ordem planejada para o álbum, pois a versão estabelece uma passagem adequada entre a música-título e “Hit Me Where It Hurts”.
Com andamento rápido, “Hit Me Where It Hurts” apresenta o lado mais “agressivo” do Tyketto. Johnny Dee conduz a música com firmeza, enquanto Elliott utiliza um riff direto e pouco ornamentado. Vaughn adota uma interpretação áspera, adequada a uma letra marcada por ressentimento. A composição também interrompe a sequência de músicas mais moderadas e adiciona variedade ao repertório.
“The Picture” é a principal balada do disco. A letra trata do fim de uma relação e da percepção de que o futuro imaginado ao lado de outra pessoa já não parece correto. O arranjo começa de maneira discreta e aumenta de intensidade na parte final. A voz de Vaughn transmite a tensão da letra, principalmente nos últimos versos. A banda evita adicionar elementos desnecessários, permitindo que a melodia permaneça em evidência.
O violão conduz “Far and Away”, composição inspirada por uma viagem de Danny Vaughn a Marrakech. A letra aborda as semelhanças entre pessoas de culturas e condições sociais diferentes. Baixo, bateria e teclados são acrescentados durante a música, que termina com um arranjo mais amplo do que aquele apresentado no início. Apesar da qualidade individual das duas composições, a colocação de “The Picture” e “Far and Away” em sequência reduz o ritmo na parte final. Uma alteração na ordem das músicas poderia resolver esse problema. “Hit Me Where It Hurts” talvez produzisse maior efeito se aparecesse entre elas.
“The Brave” encerra o álbum com uma justa homenagem aos trabalhadores que mantiveram atividades essenciais durante a pandemia. Vaughn cita profissionais da saúde, professores, funcionários de mercados e outras pessoas que receberam maior reconhecimento naquele período. O refrão conta com várias vozes e continua depois da retirada gradual dos instrumentos. É uma conclusão coerente com o caráter positivo de boa parte das letras.
Danny Vaughn continua sendo o principal nome do Tyketto. Seu desempenho em impressiona pela conservação do alcance vocal e também pela capacidade de adaptar a interpretação a cada música. Ele canta com maior agressividade em “Hit Me Where It Hurts”, reduz a intensidade na composição-título e assume uma abordagem emotiva em “The Picture”. Outro fator importante é que vocalista não depende exclusivamente das notas altas que marcaram os primeiros discos.
Vaughn e Chris Childs produziram e gravaram o álbum. Childs também ficou responsável pela mixagem, enquanto Dirk Ulrich realizou a masterização. A produção mantém todos os instrumentos bem lineares. O baixo pode ser ouvido com clareza, os teclados não aparecem apenas como fundo e a bateria conserva um som orgânico. As guitarras recebem tratamentos diferentes conforme a proposta de cada composição.
“Closer to the Sun” não supera “Don’t Come Easy”, mas essa comparação pouco acrescenta à avaliação do novo álbum. São discos gravados em épocas e circunstâncias diferentes. O novo play tem boas composições, produção cuidadosa e um vocalista que continua em ótimo nível. Depois de dez anos sem material inédito, o Tyketto apresenta um disco que ocupa uma posição importante em sua discografia, ganhando assim um folêgo para os próximos anos. Discaço!
Adquira o CD:
https://www.lojashinigamirecords.com.br/p-9503798-Tyketto—Closer-To-The-Sun

Maicon Leite atua como Assessor de Imprensa com a Wargods Press e é co-autor do livro Tá no Sangue!, e claro, editor do Arena Heavy!
Notícia mais antiga:


