
Quase duas décadas após o lançamento original, a Shinigami Records disponibiliza “The Apostasy” no mercado brasileiro. O oitavo álbum de estúdio do Behemoth chegou em 2007 com a pesada responsabilidade de suceder “Demigod”, registro que catapultou os poloneses no cenário internacional. Ouvido hoje, o disco marca o exato momento em que a banda começou a alinhar sua música, estética e presença de palco em uma visão artística unificada.
A sonoridade do Behemoth vinha passando por mutações claras desde o Black Metal de seus primórdios. Álbuns como “Satanica”, “Thelema.6” e “Zos Kia Cultus (Here and Beyond)” apresentaram uma fusão violenta entre Black e Death Metal. Como “Demigod” havia levado essa proposta ao limite, “The Apostasy” precisou explorar outro caminho, apostando em arranjos mais trabalhados, quebras de andamento e na inclusão pontual de coros, metais e piano.
Gravado entre 2006 e 2007 na Rádio Gdańsk, o disco traz o núcleo formado por Nergal, Inferno e Orion, auxiliados pelo guitarrista Seth. A produção, assinada pelo próprio Nergal junto a Arkadiusz “Malta” Malczewski, somada à mixagem de Daniel Bergstrand, garantiu guitarras bem encorpadas. No entanto, o grande motor do trabalho é a bateria de Inferno. Fugindo do óbvio, ele quebra andamentos retos o tempo todo, inserindo blast beats, viradas precisas e contratempos que anulam a previsibilidade das faixas.
A introdução com “Rome 64 C.E.” prepara o impacto de “Slaying the Prophets ov Isa”. O uso do nome árabe para Jesus (“Isa”) deixa claro que Nergal buscava referências líricas fora do satanismo clichê. Musicalmente, a faixa traz riffs mais quebrados e um acerto técnico: os vocais soam bem mais secos. Nergal evitou o excesso de camadas do disco anterior, gravando na maior parte do tempo apenas uma linha vocal principal. Isso deixou os berros orgânicos e permitiu que a articulação de cada palavra ficasse compreensível, sem camadas excessivas de vozes.
Mais direta, “Prometherion” funciona como o retrato perfeito dessa fase. Ao mesclar Death Metal com os fraseados típicos do Black Metal, a música serve como uma transição impecável entre o que a banda fazia em “Demigod” e a nova identidade de “The Apostasy”. Outro destaque absoluto é “At the Left Hand ov God”. O início se desdobra em riffs memoráveis e mudanças de ritmo bem consistentes, com os coros muito bem encaixados na estrutura, sem soarem tão exagerados.
Em contrapartida, faixas como “Kriegsphilosophie” apostam na brutalidade. Embora mostre um nível técnico altíssimo, ela expõe um pequeno defeito de “The Apostasy”: o excesso de informação. Em certas passagens do disco, a sobreposição frenética de elementos acaba sufocando riffs que soariam mais matadores se tivessem mais espaço na mixagem. É neste aspecto que muitas bandas se perdem, pois tentam colocar arranjos demais em meio a riffs e batidas, que o resultado extrapola os limites.
Um ponto totalmente fora da curva é “Inner Sanctum”. O piano fantasmagórico de Leszek Możdżer e os vocais dramáticos de Warrel Dane (Nevermore) tiram o Behemoth de sua zona de conforto. A escolha de Dane casou perfeitamente com a temática sombria da faixa, criando um clima incômodo que quebra a parede de som e evita que o disco fique chato.
Rumo ao fim do álbum, “Pazuzu” resgata a mitologia do Oriente Próximo de forma caótica, abrindo caminho para o encerramento com “Christgrinding Avenue”. Essa última tira o pé do acelerador em favor de uma pegada mais arrastada, fechando o trabalho de forma bem definida.
Liricamente, a obra mistura episódios históricos e símbolos religiosos para discutir a rejeição de dogmas. A “apostasia” do título não é apenas abandonar uma fé, mas romper ativamente com valores impostos — conceito traduzido com força na imagem da deusa Kali na capa, que representa ao mesmo tempo destruição e criação.
Ainda que a mixagem fique um pouco engarrafada pela vontade de colocar tantos instrumentos e orquestrações de uma só vez, o valor de “The Apostasy” é inegável. O Behemoth testava ali seus limites, aprendendo a administrar a grandiosidade que dominaria de vez anos mais tarde em “The Satanist” (meu preferido). A edição da Shinigami Records resgata com justiça um passo vital na carreira dos poloneses: um álbum arriscado, essencial para moldar o gigante do Metal Extremo que a banda é hoje.
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Maicon Leite atua como Assessor de Imprensa com a Wargods Press e é co-autor do livro Tá no Sangue!, e claro, editor do Arena Heavy!
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