Nasty Savage: entre a polêmica de turnê europeia e a evolução do Speed Metal
Postado em 18/10/2026


A edição número 07 da versão espanhola da revista Metal Hammer, publicada em junho de 1988, trazia aos leitores um recorte fiel do Heavy Metal daquela época. Dividindo espaço com a histórica visita do Scorpions à URSS (foram uma das primeiras grandes bandas de Rock ocidental a se apresentar na União Soviética, antes deles o Uriah Heep já havia passado pela “cortina de ferro” e tocado lá em 1987) e entrevistas exclusivas com gigantes como Slayer e Judas Priest, uma matéria em especial chamava a atenção: os bastidores conturbados da primeira excursão europeia do Nasty Savage.

Na entrevista, assinada por Götz Kühnemund, o vocalista Ronnie Galletti detalha a “agonia e o êxtase” vividos pela banda após o cancelamento de seus shows na Alemanha no ano de 1988, um problema motivado por mal-entendidos com os promotores locais em torno do controverso título da turnê, batizada de “European Blitzkrieg Tour ’88’”. Interessante observar que, embora na matéria o título da excursão apareça como “Blitzkrieg Over Europe” e na própria entrevista seja citado desta forma, documentos promocionais e registros posteriores de apresentações de 1988 também identificam a turnê como “European Blitzkrieg Tour ’88’”, nome presente inclusive em pôsteres e camisetas da época.

A controversa excursão europeia do Nasty Savage, ao lado de Atomkraft e Exumer, teve início no final de janeiro de 1988. A passagem pela Alemanha ocorreu no início de fevereiro, entre os dias 1º e 5, antes de o grupo seguir para uma série de apresentações na Polônia.

No cenário do Metal dos anos 1980, poucas bandas encarnavam tão bem a mistura de teatralidade e ousadia quanto o Nasty Savage. Oriundos da Flórida, em um período em que o estado começava a ganhar fama como berço da cena Death Metal mais brutal do mundo, o grupo liderado pelo vocalista Ronnie Galletti — conhecido artisticamente como “Nasty Ronnie” — transitava entre o Speed/Thrash e o Heavy Metal, mas com uma pegada própria, marcada por apresentações intensas e um humor ácido que, às vezes, extrapolava fronteiras culturais.

Foi justamente essa ousadia que trouxe problemas durante a primeira turnê europeia da banda. A excursão, que também contava com o Atomkraft e o Exumer, recebeu o título “Blitzkrieg Over Europe” — expressão carregada de significados históricos na Alemanha e na Polônia em razão de sua associação com a Segunda Guerra Mundial. “Não entendo que más ideias tiveram com esse estúpido título de ‘Blitzkrieg Over Europe’. Eles não entendiam como era a situação na Alemanha e na Polônia. Em resumo, apesar de todos os problemas, todos os shows foram acontecendo. Foi somente quando fomos para a Alemanha que tivemos de cancelar os concertos”, recorda Ronnie em relação aos produtores da turnê.

Segundo o vocalista, porém, a polêmica não foi o único — e talvez nem o principal — motivo dos cancelamentos. “Nosso tour manager me disse que a verdadeira razão pela qual eles tinham sido cancelados foi que o promotor alemão estava com problemas de dinheiro e não queria assumir os custos dos shows, então tentou cancelá-los. Não podíamos deixar que isso acontecesse, então fomos atrás e conseguimos outro agente capaz de arranjar alguns concertos rapidamente. Mas aí já era tarde para que a imprensa soubesse e pudesse anunciar os shows. Além disso, o antigo promotor provavelmente deu informações falsas para várias emissoras de rádio. Mas o que aconteceu no fim? Pois estamos aqui, e essa é a única verdade”.

Mesmo conseguindo tocar em algumas cidades alemãs, a falta de divulgação frustrou parte dos fãs, algo que Ronnie admite, mas ressalta que não estava sob o controle do grupo. “Claro, mas as bandas realmente não têm muito controle sobre os detalhes finais da organização de uma turnê… Se a turnê tivesse sido promovida da forma correta, poderíamos ter lotado lugares maiores. Os que se arriscaram a vir nos ver ficaram satisfeitos”.

Satisfeitos, de fato, eles ficaram. O Nasty Savage era conhecido por performances caóticas e imprevisíveis, com Ronnie roubando a cena. Vestindo-se como um lutador de sumô, quebrando TVs ou encenando passagens teatrais em músicas menos pesadas, o vocalista transformava o palco em uma verdadeira arena. “Enquanto for só alguns cortes, feridas ou arranhões… Eu libero minha fúria e acho divertido me machucar. O que tento fazer durante as músicas é me expressar e ultrapassar essas barreiras… é divertido. Os fãs reagem de forma violenta, mas nunca há problemas de verdade”.

Essas interações, no entanto, podiam beirar o limite do perigo. “Sempre tem alguém que se joga do palco de cabeça, caindo com força no chão se os outros não pegarem a tempo. Houve uma garota que fraturou a coluna quando se lançou, mas não teve danos maiores, e ninguém mais se machucou seriamente em nenhum de nossos shows. É tudo simples diversão e, se começa uma briga no meio do público, eu mesmo vou lá e paro. Teve um cara que cuspia em mim do público e achava que estava seguro lá no meio, mas, durante um solo, saltei do palco, agarrei o cara e consegui voltar a tempo para o refrão. Os fãs adoraram e gritaram como loucos. Depois do show, pedi desculpas ao rapaz, porque não quero nenhum tipo de violência nos nossos concertos. Cada um pode se divertir à sua maneira, sem precisar acabar no hospital na manhã seguinte”.

Para além das declarações sobre a indústria musical, a matéria assinada por Götz Kühnemund capturou a essência performática do Nasty Savage através do olhar atento do próprio repórter. Kühnemund faz questão de ressaltar que Ronnie não estava exagerando ao afirmar que o espetáculo da banda valia cada centavo do ingresso. A prova física dessa performance extrema surgiu no meio da conversa, quando o vocalista exibiu, com notável orgulho, uma cicatriz de três polegadas nas costas, resultado direto de suas ações no palco. O entusiasmo ao narrar essas anedotas caóticas era tamanho que o jornalista comparou Ronnie a “um garotinho com um brinquedo novo”, mostrando que a agressividade teatral do grupo era movida por uma diversão autêntica e incontrolável.

Confira playlist especial sobre Speed Metal:

“Abstract Reality” e a Evolução Musical

Apesar das turbulências na estrada, o Nasty Savage seguia produzindo novo material. Em 1988, a banda lançou o EP “Abstract Reality”, um registro que, segundo Ronnie, representava um avanço no peso e na complexidade de suas composições. “As quatro faixas do EP são mais rápidas, pesadas e intensas do que tudo o que fizemos antes. ‘Unchained Angel’ nós tiramos da demo, mas acho que agora está muito melhor. Estamos mais complexos e acho que evoluímos um pouco. Acho que encontramos nosso estilo particular”,

Perguntado se esse estilo poderia se perder em meio à enxurrada de bandas de Speed e Thrash Metal que surgiam no período, o vocalista é enfático: “Espero que não. Não tocamos rápido só por tocar e não estamos nos juntando a nenhuma moda. Sempre tentamos evoluir e acho que conseguimos. A cada álbum que lançamos, a música, as letras e até a produção melhoraram. Como músico, você não pode se superestimar ou se achar brilhante — se fizer isso, vai estagnar. Acho que estamos no caminho certo”.

Embora o vocalista veja progresso na trajetória da banda, ele admite que nem todos os passos foram ascendentes. “A única exceção foi o nosso álbum de estreia, “Nasty Savage”, que era melhor que o segundo, “Indulgence”. Era um material clássico, qual foi o problema? Durante dois anos eu fiz toda a promoção, respondia às cartas dos fãs e cuidava de tudo pessoalmente. Costumava trabalhar muito nisso, às vezes até altas horas da madrugada, e não fazia isso pensando em resultados financeiros. Quando gravamos o segundo álbum, já tínhamos um empresário que cuidava de tudo, então nunca mais nos preocupamos com isso. Uma grande quantidade de correspondência se perdeu porque a gravadora e a equipe de gerenciamento não podiam cuidar disso. Talvez os fãs tenham percebido, e talvez por isso as vendas tenham sido tão baixas, o que significou que também não podíamos gastar muito mais dinheiro em publicidade”.

As dificuldades não se limitaram ao marketing. Mudanças de formação também abalaram o grupo. “Chris Moore já é o nosso terceiro baixista. No momento, Chris está tendo grandes problemas com a namorada, que o vigia cada vez mais. Se ele decidir não querer ir para a próxima turnê nos Estados Unidos, teremos que procurar outro baixista. Então, agora temos alguns problemas, mas, se tudo correr bem, logo vamos esquecê-los…”. Chris Moorhouse, baixista da banda naquele período, morreu em um acidente automobilístico em maio de 1988, pouco tempo depois do lançamento de “Abstract Reality”.

O Nasty Savage pode não ter alcançado o mesmo status comercial que outros nomes do Thrash da época, mas seu legado está na combinação única de peso, técnica e performance teatral. A polêmica da turnê “Blitzkrieg Over Europe” e as histórias de palco de Ronnie são parte de uma história que ajuda a entender como o Metal dos anos 1980 era um espetáculo vivo, muitas vezes imprevisível e com personalidade intransferível. Poucos meses depois dessa turnê desastrosa, a banda faria sua primeira visita ao Brasil, no mês de julho de 1988, tocando em São Paulo.

Conheça mais bandas:

O Thrash/Speed Metal no final dos anos 1980

O fim da década de 1980 foi um período de transição para o Metal. O Thrash, que havia despontado no início da década como um movimento underground inspirado pelo NWOBHM, pelo Punk e pela velocidade de bandas como Motörhead, já ocupava espaço nas grandes gravadoras e nos principais festivais. Grupos como Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax despontavam como líderes de uma nova era, enquanto nomes como Exodus, Testament, Overkill e Kreator mantinham acesa a chama da agressividade.

No underground, o Speed Metal — mais melódico, mas não menos veloz — encontrava espaço tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, pavimentando terreno para a ascensão do Power Metal e, em alguns casos, se misturando ao Thrash para criar híbridos únicos. A Flórida, terra natal do Nasty Savage, já começava a despontar como berço de uma outra vertente: o Death Metal, capitaneado por bandas como Death, Morbid Angel e Obituary.

O Nasty Savage, no entanto, sempre ocupou uma posição à parte. Seu som unia o peso do Thrash, passagens técnicas e uma estética teatral incomum para o gênero — em parte pela personalidade de Ronnie Galletti, que transformava o palco em um misto de ringue e performance artística (haja TVs para quebrar no palco!). Essa postura cênica, aliada à mistura de riffs velozes e arranjos mais complexos, fazia da banda um nome difícil de rotular, mas essencial para compreender a diversidade da cena Metal norte-americana.

Os percalços desta turnê revelam também outro aspecto importante da época: a dificuldade logística e cultural de bandas de Thrash/Speed em turnês internacionais. Eram tempos em que a promoção dependia quase totalmente da imprensa especializada, da boca a boca e das cartas de fãs — e qualquer falha nesse ciclo podia comprometer todo o alcance de um álbum ou de uma excursão.

Mesmo sem o mesmo alcance comercial de alguns contemporâneos, o Nasty Savage deixou sua marca como uma das bandas mais originais de sua geração, mantendo um culto fiel de seguidores e influenciando músicos que valorizam tanto a sonoridade quanto a teatralidade no Metal.

Linha do Tempo – Nasty Savage (até o final dos anos 1980)

  • 1983 – Formação da banda em Brandon, Flórida, por Ronnie Galletti (Nasty Ronnie), Ben Meyer e Dave Austin.
  • 1984 – Lançamento da demo “Wage of Mayhem”, que amplia a circulação da banda no underground e ajuda a abrir caminho para sua ligação com a Metal Blade Records.
  • 1985 – Álbum de estreia “Nasty Savage”, com sonoridade que mescla Thrash, Speed e elementos técnicos; ganha reputação pela performance teatral.
  • 1987 – Lançamento de “Indulgence”, consolidando o nome da banda; videoclipe de “Indulgence” exibido na MTV Headbangers Ball.
  • 1987-1988 – Participação em turnês e festivais nos EUA.
  • 1988 – Lançamento do EP “Abstract Reality”, mostrando um lado mais experimental e técnico. No mesmo ano, a banda embarca na controversa turnê europeia “Blitzkrieg Over Europe” ao lado de Atomkraft e Exumer, marcada por cancelamentos e problemas de divulgação.
  • 1989 – Lançamento do álbum “Penetration Point”, mantendo a alta complexidade técnica antes de a banda desacelerar suas atividades na virada da década.

 

Linha do Tempo – Speed Metal (até o final dos anos 1980)

  • Fim dos anos 1970 – O surgimento da NWOBHM, aliado à influência decisiva de bandas como Motörhead, ajudou a acelerar o Heavy Metal.
  • 1981 – Lançamentos de “Killers” (Iron Maiden) e “Fire Down Under” (Riot) mostram como velocidade e melodia podem andar juntas.
  • 1983 – Exciter (Canadá) lança “Heavy Metal Maniac”, considerado um marco inicial do Speed Metal.
  • 1984 – O Running Wild lança “Gates to Purgatory”, solidificando o estilo na Europa, e a demo “Wage of Mayhem” coloca o Nasty Savage no radar do underground.
  • 1985 – Helloween (Alemanha) lança o EP “Helloween”.
  • 1985 – Helloween lança “Walls of Jericho”; Metallica e Megadeth impulsionam o Thrash, que cruza fronteiras com o Speed.
  • 1986 – Lançamento de “Pleasure to Kill” (Kreator)
  • 1987 – Blind Guardian lança “Battalions of Fear”; na América, Agent Steel e Savage Grace mantêm viva a vertente técnica do Speed Metal.
  • 1988-1989 – As fronteiras entre Speed e Power Metal tornam-se cada vez mais fluidas. Bandas como Helloween ajudam a estabelecer as bases de uma vertente mais melódica e épica, enquanto grupos como Stratovarius começam a desenvolver características que seriam associadas ao Power Metal nos anos seguintes. Paralelamente, o Thrash técnico de bandas como Toxik, Realm e Watchtower leva a velocidade e a complexidade instrumental a outros caminhos.
  • 1990 – O Gamma Ray estreia com “Heading for Tomorrow”, consolidando uma das vertentes que surgiriam da evolução do Speed Metal europeu.

 
Categoria/Category: Destaque · Entrevistas · Matérias
Tags:

TOP