Moonspell: A grandiosidade do Heavy Metal e da música erudita no arrebatador “Opus Diabolicum”; confira resenha
Postado em 13/07/2026


Os últimos dez anos do Moonspell têm se provado um capítulo à parte na já riquíssima trajetória da banda portuguesa. Na verdade, desde 2017 o grupo respira ares de pura inspiração, lançando materiais que desafiam a sua própria zona de conforto. Essa fase de ouro recente teve início com o épico “1755” (2017). Cantado inteiramente em português, este riquíssimo álbum conceitual relata o fatídico terremoto de Lisboa ocorrido em 1755 (e que gerou consequências até no distante Brasil colonial), apresentando uma sonoridade pesada, teatral e opressiva, guiada por arranjos trabalhados e por um Fernando Ribeiro visceral. Creio eu que se trata de um dos três melhores álbuns “dos Moonspell”.

O contraste em relação a “1755” veio alguns anos depois. Em 2021, foi a vez de “Hermitage” chegar à praça, carregando uma sonoridade muito diferente de seu antecessor. Mais leve, contido, progressivo e melancólico, o disco funcionou como um reflexo direto da introspecção e do distanciamento ditados pelos tempos de pandemia. Era como se fosse outra banda.

A inquietude lusitana, no entanto, continuou gerando lançamentos inusitados. O sensacional “From Down Below – Live 80 Meters Deep” (2022) provou isso ao literalmente levar a banda para debaixo da terra. Gravado a 80 metros de profundidade nas Grutas de Mira de Aire, o grupo executou as faixas de “Hermitage” em um ambiente subterrâneo de acústica crua e reverberante. O resultado foi um registro intimista e visualmente arrebatador, documentando a banda em total sinergia com o silêncio e as formações rochosas.

Após toda essa bagagem criativa, o quinteto atinge o ápice com “Opus Diabolicum – The Orchestral Live Show”, um disco que mais uma vez comprova a máxima irrefutável: o Heavy Metal e a música clássica foram feitos um para o outro. Na verdade, podemos até dizer que certas ramificações do Metal vêm da música clássica, vide a influência exercida em nomes como Ritchie Blackmore e o próprio Deep Purple, por exemplo.

Enfim, devaneios a parte, o registro documenta um show ocorrido em 26 de outubro de 2024, na MEO Arena, em Lisboa. Sob o comando do maestro Vasco Pearce de Azevedo, a orquestra sinfônica trouxe 45 músicos para o palco, tudo isso embalado pelo trabalho primoroso de mixagem do produtor Jaime Gomez Arellano, que soube capturar a essência da banda com a orquestra de maneira primorosa.

Unir Heavy Metal a uma orquestra não é algo novo e não deixa de ser um flerte perigoso onde muitas bandas tropeçam no excesso, mas o Moonspell acertou na mosca. Acompanhados pela Sinfonietta de Lisboa, a orquestração potencializa a aura sombria das composições, elevando a intensidade das músicas. As texturas sinfônicas abraçam os riffs afiados de Ricardo Amorim, e a bateria soa colossal ao lado da percussão orquestrada, enquanto Fernando Ribeiro domina o palco com a presença cênica e o vocal característicos.

Faixas atemporais do repertório ganham contornos inspirados. O setlist, aliás, impacta logo de cara com a orquestra executando a instrumental “Tungstennio”. O álbum “1755” é a espinha dorsal da apresentação, fornecendo cinco petardos em sequência, começando pela dramática “Em Nome do Medo” e passando por pedradas como “1755”, “In Tremor Dei”, “Desastre” e “Ruínas”. Faltou “Lanterna dos Afogados”, cover dos nossos Paralamas do Sucesso, que junto à orquestra ficaria sublime.

Mais à frente, no segundo CD, as releituras orquestrais passeiam por diversas fases da banda. Os novos arranjos para o clássico “Vampiria” criam um dos momentos de maior arrepiar da audição, preparando o terreno de forma apoteótica para o fechamento com os hinos absolutos “Alma Mater” e “Fullmoon Madness”. É uma performance que honra o legado do grupo e cria mais um registro perfeito entre estilos que se completam perfeitamente.

Para coroar esse espetáculo, a edição física lançada no mercado nacional merece destaque. O disco chegou ao Brasil pelas mãos da gravadora Shinigami Records, disponibilizando aos fãs uma embalagem belíssima contendo dois CDs. O grande diferencial fica por conta da arte: uma capa nova e exclusiva para este lançamento brasileiro, tornando o material ainda mais especial. Somado a isso, o encarte caprichado e rico em fotos do concerto completa a experiência visual da obra. É, em todos os sentidos, um verdadeiro primor e um item de colecionador obrigatório na estante de qualquer headbanger.

Ouça:

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