
Por Ozyrys Sheratan
Edição e revisão: Maicon Leite
Entre distorções e atmosferas que atravessam o existencial, a banda It’s All Red construiu, ao longo de quase duas décadas, uma identidade que vai além dos rótulos do metalcore. O que começou como uma expressão crua de energia e intensidade evoluiu para um discurso artístico profundo, onde música, filosofia e experiência humana se entrelaçam. Nesta entrevista, a banda revela os bastidores de sua transformação: da fúria juvenil à maturidade consciente, da experimentação sonora à construção de uma linguagem própria.
Gravada no Complexo RR44, em Porto Alegre, a conversa percorre passado, presente e futuro — abordando temas como identidade, pertencimento, colaboração artística e o impacto dos acontecimentos sociais na criação musical.
Apresentação dos integrantes:
Tom Zynski (vocal e letrista): “Estou na banda desde março de 2014.”
Rafael Siqueira (guitarra): “Estou na banda desde 2007. Entrei inicialmente como produtor do primeiro disco.
Renato Siqueira (bateria): “Também estou desde 2007. Fui chamado para gravar o primeiro álbum e acabei permanecendo.”
Daniel Nodari (guitarra): “Integro a banda desde 2022.”
Arena Heavy: O show de 21 de março em Porto Alegre foi o ápice de uma jornada que se transformou completamente nos últimos 12 anos. Comparando com o início da banda lá em 2007, como vocês sentiram que essa formação atual conseguiu traduzir no palco não apenas o peso, mas a profundidade filosófica que se tornou a marca registrada de vocês?
Rafael Siqueira: A banda sempre buscou ir além da música. Existe uma preocupação constante com letras, estética, performance e construção de identidade. Sempre enxergamos o projeto como algo completo. Esse show, em especial, foi um marco porque trouxe um elemento novo: pela primeira vez tivemos teclado ao vivo com o Vinícius Moller. Ele sempre participou das gravações, mas nunca havia estado no palco com a gente. Isso elevou o espetáculo a outro nível.
Renato Siqueira: A mudança sonora foi muito clara. O teclado acrescenta uma dimensão harmônica que transforma completamente a experiência ao vivo.
Tom Zynski: Além disso, impacta diretamente na performance. Ter mais suporte harmônico melhora a afinação e amplia as possibilidades vocais. Em um cenário onde muitas bandas optam por trilhas por questões logísticas, essa escolha reforça nossa proposta artística.
Arena Heavy: A chegada do Tom em 2014 trouxe uma nova dinâmica lírica e vocal para a It’s All Red. Com a turnê internacional chegando, vocês sentem que o conceito de “Pertencimento” – tema do single recente – é o fechamento perfeito para iniciar uma nova fase? O que podemos esperar daqui nos próximos lançamentos?
Tom Zynski: Minha entrada na banda representou uma mudança significativa, inclusive porque substituí três vocalistas. Aos poucos, passei a assumir também uma função mais ativa na construção das letras. “Pertencimento” simboliza muito bem essa nova fase. A letra foi escrita pelo Humberto Gessinger, e tive liberdade para adaptar trechos e trabalhar nuances, inclusive com uma abordagem bilíngue. O que foi lançado até agora é apenas parte de uma composição maior. Trabalhar com ele foi uma experiência extremamente enriquecedora. O nível de detalhe e cuidado com cada palavra influenciou profundamente meu processo criativo.
Arena Heavy: A parceria com o Humberto Gessinger parece ser o selo definitivo dessa maturidade. Como foi para vocês, como músicos de metal, encontrar esse ponto de equilíbrio entre o peso e a poesia regional? Isso mudou a forma como vocês enxergam a própria identidade para a próxima fase da banda?
Rafael Siqueira: Foi algo natural. Crescemos ouvindo o Humberto e compartilhamos o mesmo contexto cultural. Não existe uma ruptura entre as linguagens.
Renato Siqueira: Há continuidade. O mais importante foi manter a autenticidade. Ninguém tentou se moldar ao outro. Cada um trouxe sua essência, e isso permitiu que a música fluísse de forma orgânica.
Tom Zynski: A banda nunca se limitou musicalmente. Essa liberdade de explorar diferentes sonoridades, instrumentos e ideias é central para o nosso trabalho e também é um ponto de conexão com ele.
Arena Heavy: No início, a banda buscava seu espaço no metal gaúcho com uma pegada mais crua. Hoje, vocês são referência em misturar influências sociais e psicológicas. Qual foi o ponto de virada onde vocês perceberam que a música da It’s All Red precisava dizer algo mais profundo sobre a condição humana?
Renato Siqueira: Não houve um momento específico. Foi um processo natural, influenciado pelas experiências vividas ao longo do tempo. Eventos como a tragédia da Boate Kiss, a pandemia e as enchentes tiveram um impacto direto na nossa percepção de mundo.
Rafael Siqueira: Desde o início já existia essa inclinação. Sempre fomos influenciados por cinema, literatura e outras formas de arte. O que mudou foi a profundidade com que passamos a trabalhar esses temas.
Arena Heavy: O álbum Lead By The Blind (2015) foi o primeiro grande cartão de visitas dessa fase com o Tom. Nos singles mais recentes lançados, como vocês equilibraram a fúria daquele início com a lucidez que a maturidade trouxe para a banda?
Tom Zynski: Na época da gravação eu era muito jovem, havia uma intensidade mais impulsiva. Hoje existe uma consciência maior sobre como canalizar essa energia.
Renato Siqueira: Antes, havia mais preocupação técnica. Hoje buscamos mais musicalidade e conexão.
Rafael Siqueira: É um processo natural de amadurecimento. Cada fase reflete quem éramos naquele momento.
Arena Heavy: O EP com relançamento H5N1 mostrou uma face meditativa da banda, muito influenciada pela vivência da pandemia. Depois de 6 anos da pandemia, como vocês acham que ela influenciou a visão de vocês como artistas? Podemos esperar mais surpresas e releituras como essa nos próximos trabalhos?
Daniel Nodari: Essa abordagem vem também da minha trajetória com yoga, sound healing e música indiana. Trouxe essas influências para criar uma versão meditativa da música.
Rafael Siqueira: A versão acústica exige uma reconstrução completa da composição. Não é adaptação, é recriação.
Tom Zynski: Existe sim interesse em continuar explorando novas interpretações e formatos.

Arena Heavy: O Estúdio e Complexo RR44 se tornou um pilar para a cena de Porto Alegre, especialmente após as enchentes de 2024. Como essa consciência de que “somos um só” e a construção dessa união da comunidade de artistas do metal gaúcho moldou a mensagem que vocês estão deixando para os fãs?
Renato Siqueira: A mensagem é de colaboração. A cena cresce quando há união, não competição.
Rafael Siqueira: O estúdio se tornou um ponto de encontro. Um espaço de troca, construção e reconexão entre artistas. O RR44 nasceu de uma necessidade, mas acabou se tornando algo maior. Inicialmente, a ideia era apenas termos um espaço próprio para trabalhar, mas com o tempo isso se expandiu. O Juliano Ângelo, que fez parte da banda e esteve envolvido no início do projeto, teve um papel fundamental nessa visão de criar um complexo. Mesmo tendo se afastado por um período, ele voltou recentemente a fazer parte do espaço.
Renato Siqueira: Esse retorno simboliza muito bem o que o estúdio representa: continuidade, parceria e construção coletiva. Não é apenas um local físico, é um ponto de convergência.
Rafael Siqueira: A convivência diária com outros músicos, a troca de ideias, os workshops, tudo isso fortalece não só a cena, mas também a identidade de cada artista. A mensagem que fica é clara: evolução acontece em conjunto.
Arena Heavy: Existe uma química muito evidente entre vocês. Como tem sido o processo de gravação do novo álbum e quais desafios e transformações ele tem causado a vocês como artistas e seres humanos?
Tom Zynski: O processo tem sido muito mais consciente. Existe uma preocupação maior com intenção, com narrativa, com o que cada música realmente quer comunicar.
Rafael Siqueira: Hoje a gente compõe de forma mais coletiva e aberta. As ideias são discutidas, testadas, desconstruídas e reconstruídas. Existe menos pressa e mais profundidade.
Renato Siqueira: O maior desafio talvez seja justamente esse: desapegar de fórmulas antigas. Entender que evoluir também significa abandonar certas zonas de conforto.
Daniel Nodari: Também existe um mergulho mais interno. O processo criativo acaba sendo quase terapêutico. As músicas refletem muito mais quem a gente é hoje.
Arena Heavy: A It’s All Red sempre desafiou as estruturas tradicionais do Metalcore. Para esse trabalho final, podemos esperar composições que refletem a impermanência da vida, com mudanças que peguem o ouvinte que conheceu a banda em 2007 ou 2015 desprevenido?
Rafael Siqueira: Sim, sem dúvida. A gente nunca teve medo de quebrar expectativas.
Tom Zynski: A ideia de impermanência está muito presente. Não existe mais apego a uma identidade fixa. A banda está em constante transformação.
Renato Siqueira: Quem espera encontrar exatamente a mesma banda de antes vai se surpreender. Mas essa surpresa faz parte do processo.
Daniel Nodari: A mudança não é forçada. Ela acontece naturalmente, como reflexo daquilo que vivemos e absorvemos ao longo do tempo.
Arena Heavy: Se pudéssemos olhar para a formação de 2007 e a de hoje, o que permanece vivo na essência e o que foi transformado? Qual é a essência de autenticidade que vocês querem que os fãs sintam e absorvam nessa nova fase da banda?
Rafael Siqueira: O que permanece é a vontade de criar algo verdadeiro. Isso nunca mudou.
Renato Siqueira: A energia ainda está lá, mas ela foi ressignificada. Antes era mais impulsiva, hoje é mais consciente.
Tom Zynski: A essência é honestidade. A gente não cria pensando em agradar, mas em expressar.
Daniel Nodari: O que mudou foi a forma. O conteúdo ficou mais profundo, mais elaborado, mais conectado com a realidade que vivemos.
Arena Heavy: Quais recados finais e avisos vocês querem deixar para o público?
Tom Zynski: Continuem acompanhando. Tem muita coisa nova vindo, e é um trabalho feito com muito cuidado.
Rafael Siqueira: Apoiem a cena local. Fortalecer o underground é fundamental para que tudo isso continue existindo.
Renato Siqueira: Estejam abertos às mudanças. A música, assim como a vida, está sempre em transformação.
Daniel Nodari: E, acima de tudo, escutem com atenção. Existe muito mais nas entrelinhas do que apenas o som.
Conclusão:
A entrevista revela uma evolução existencial que não se limita ao crescimento técnico. O It’s All Red deixou de ser apenas um veículo de intensidade sonora para se tornar um espaço de reflexão. Se no início havia caos, hoje existe consciência. Entre estúdio, palco e experimentação, a banda constrói pontes, reafirmando que a música pode ser uma ferramenta de transformação individual e coletiva.
Serviços e atividades paralelas dos integrantes:
Além da atuação artística, os integrantes desenvolvem projetos que ampliam sua atuação no cenário criativo:
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Rafael Siqueira (guitarra): Atua na área de produção musical, com gravação, arranjos e desenvolvimento de projetos autorais.
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Renato Siqueira (bateria): Envolvido na produção e na construção de projetos dentro do Complexo RR44.
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Daniel Nodari (guitarra): Desenvolve trabalhos voltados à música terapêutica, sound healing e trilhas atmosféricas.
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Tom Zynski (vocal): Atua na composição lírica, desenvolvimento artístico e direção criativa.
O Complexo RR44 consolida-se como um espaço de produção musical, ensaios, workshops e desenvolvimento artístico colaborativo.
Assista ao bate-papo:

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