
Lançar o sucessor de um álbum que redefiniu os rumos de uma banda é sempre um terreno arriscado. Com “Pain Remains” (2022), o Lorna Shore rompeu as barreiras do Deathcore, alcançando um público impensável para a música extrema. Três anos depois, o quinteto norte-americano retorna com “I Feel the Everblack Festering Within Me”, provando que é sempre possível ir adiante.
Logo na primeira audição, fica claro que a parceria com o produtor Josh Schroeder, no estúdio Random Awesome!, encontrou sua melhor forma. São 66 minutos de uma verdadeira muralha sonora. É comum que trabalhos com tantos elementos acabem embolados ou artificiais, mas o trabalho de Josh conseguiu equilibrar as coisas relativamente bem. As guitarras de Adam De Micco e Andrew O’Connor, junto ao baixo de Michael Yager, estão bem separadas na mixagem, abrindo espaço para as orquestrações, sem perder a agressividade. A bateria de Austin Archey continua conduzindo a banda rumo ao extremismo de forma pujante.
Will Ramos, por sua vez, é um vocalista que sabe interpretar muito bem as letras de acordo com o instrumental. O foco neste novo álbum está na maneira como essas técnicas ajudam o vocalista a transmitir todo o desespero e angústia que brotam em cada frase. A abertura com “Prison of Flesh”, por exemplo, mostra isso ao explorar o terror claustrofóbico da perda de memória e identidade e mostra os diversos elementos da banda ao longo de 7 minutos, enquanto “Oblivion” traz um pouco de caos com boas passagens mais cadenciadas e vocais alucinantes. “Unbreakable” contrabalança a letra sobre superação com um instrumental pesado.
“Glenwood”, por outro lado, apresenta um dos momentos mais interessantes do disco ao apostar em uma atmosfera mais calma e melódica. O contraste funciona justamente porque aparece em meio a tanta agressividade, deixando a faixa ainda mais sombria. É uma gota de calmaria em meio a tempestade, embora a velocidade se faça presente em determinadas passagens. A faixa aborda a relação de Will Ramos com seu pai, o que a torna mais emotiva. Sinceramente, creio que que esta seja minha música preferida do disco. Interessante citar o que aparece no final do clipe desta música: “Will Ramos ficou afastado do pai por dez anos, apesar de morarem a apenas vinte minutos de distância. Eles não se falaram nenhuma vez até depois de concluírem a turnê “Pain Remains”, em 2023″. Logo após, Will e seu pai conversam e encerram o vídeo com um abraço e palavras de amor. Realmente emocionante e serve como lição para quem passou pela mesma situação.
O único porém do álbum, de uma forma geral, está na sua própria grandeza. Com quase 70 minutos de duração, o quinteto obviamente se mantém fiel à fórmula que ajudou a colocá-lo entre os grandes nomes do Deathcore. O problema é que, depois de algumas faixas, já começamos a perceber para onde determinadas músicas estão caminhando. Individualmente, elas funcionam muito bem, mas a repetição dessa estrutura acaba diminuindo um pouco o impacto na segunda metade.
No meu caso, existe ainda uma questão pessoal. Algumas bandas da geração mais nova, especialmente aquelas que trabalham com uma sonoridade mais moderna e carregada de elementos, trazem uma assimilação mais demorada. Isso não tem relação com falta de interesse pelo que está sendo produzido atualmente — pelo contrário, acompanho e ouço bastante coisa nova —, mas algumas propostas precisam de mais tempo para serem absorvidas. Com o Lorna Shore, essa sensação é particularmente forte pela quantidade de informações concentradas em cada faixa. Orquestrações, guitarras, bateria, vocais extremos e mudanças de andamento acontecem praticamente ao mesmo tempo, e nem sempre tudo se revela de uma vez.
Meu saudoso amigo Marcos Garcia diria que falta um pouco de “memorabilidade”. Mas, é um daqueles discos que, para mim, vai ganhando contornos diferentes conforme as audições aumentam. Alguns elementos podem se tornar cansativos antes de chegar a finaleira com “Forevermore”. Para ouvintes menos assíduos e acostumados à esta sonoridade, a audição pode gerar um certo cansaço. É o típico “ame ou odeie”.
Ainda assim, a comparação com “Pain Remains” acaba sendo favorável ao novo trabalho. O álbum de 2022 tinha o elemento da surpresa e foi fundamental para levar o Lorna Shore a um público muito maior. Agora, a banda parece estar mais à vontade para trilhar seu rumo. Não existe a mesma sensação de descoberta, mas há mais segurança na maneira de trabalhar as guitarras, os vocais e, principalmente, as orquestrações. O grupo sabe exatamente o tipo de som que quer fazer. Às vezes exagera? Sem dúvida. E bastante. Mas também é difícil imaginar outro nome fazendo esse tipo de Deathcore sinfônico com a mesma pegada.
No fim, “I Feel the Everblack Festering Within Me” é um disco que merece algumas audições e exige um pouco mais de tempo para ser absorvido. Pelo menos para mim, ele não se revelou inteiro de primeira — e talvez esse seja justamente um dos motivos pelos quais continuo voltando a algumas faixas. É brutal, grandioso e tecnicamente impressionante, mas também mostra uma banda que conhece muito bem os limites da própria fórmula e sabe até onde pode esticá-la. E, goste-se ou não do som dos caras, é difícil negar o tamanho que a banda alcançou dentro da música pesada atual. É o Metal se renovando e trazendo público novo para nossas fileiras.
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Maicon Leite atua como Assessor de Imprensa com a Wargods Press e é co-autor do livro Tá no Sangue!, e claro, editor do Arena Heavy!
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