
Quatro anos depois de “Nemesis”, o Gladenfold retorna com um álbum que muda de forma clara o ponto central de sua música. O trabalho de 2022 explorava uma sonoridade que cedia mais espaço ao Melodic Death Metal. Em “Soulbound”, o Power Metal e os arranjos sinfônicos avançam para a linha de frente, acompanhados por refrães mais pegajosos e uma presença muito maior dos vocais limpos. O resultado certamente apresenta uma leitura diferente de sua proposta.
Formado em 2003, na cidade finlandesa de Turku, o grupo chega ao quarto álbum após uma trajetória construída aos poucos. Children of Bodom, Kamelot, Blind Guardian e Freedom Call estão entre as influências reconhecidas pelos próprios músicos, embora “Soulbound” mostre uma banda suficientemente experiente para não depender de uma única referência. Essas diferentes vertentes aparecem reunidas em uma história sobre destino, escolhas e consequências, envolvendo dois personagens ligados por acontecimentos que se repetem ao longo do tempo.
“Fire Wind” apresenta essa nova direção logo no começo. Após uma pequena passagem sinfônica de introdução, a música ganha velocidade, apoiada pela bateria de Lauri Itälä e pelas guitarras de Matias Knuuttila e Toke Gerdts. Os teclados de Paavali Pouttu não ficam escondidos lá atrás, mas participam das melodias e das seções instrumentais. A composição ainda reserva algumas mudanças de andamento, suficientes para impedir que sua estrutura fique limitada ao contraste entre estrofes rápidas e o típico refrão grandioso. O resultado final é empolgante!
Esko Itälä também chama atenção por não basear sua interpretação nos agudos normalmente associados ao Power Metal. O vocalista trabalha principalmente em regiões médias, dando maior firmeza às melodias e aproximando algumas passagens do trabalho de Tommy Karevik no Kamelot. Quando recorre aos vocais agressivos, o faz em momentos específicos, criando uma separação bastante clara entre os dois estilos.
Depois do andamento mais controlado de “Wardens of Time”, o álbum acelera novamente em “For My Queen”. Escolhida como primeiro single, a faixa recupera várias características do Power Metal finlandês (ou europeu) produzido no começo dos anos 2000, principalmente pelo uso dos teclados e das guitarras harmonizadas. Chega a bater uma nostalgia. O refrão é imediato, mas o melhor trecho surge no desenvolvimento instrumental, antes da mudança de tom que antecede sua parte final.
“Helix of Hate” é a música mais pesada do disco e a que estabelece a ligação mais direta com “Nemesis”. Esko alterna vocais guturais e limpos, enquanto bateria e guitarras adotam uma condução bem mais agressiva. O refrão, entretanto, segue a orientação melódica do restante do álbum. Essa oposição combina com o caráter conflituoso da letra e faz da faixa um dos momentos mais interessantes de “Soulbound”. Ao mesmo tempo, provoca a impressão de que o disco poderia ter utilizado os vocais extremos em mais duas ou três passagens, mesmo sem retornar ao formato do álbum anterior.
A mudança para “Mercy” é acentuada. Mais lenta e melancólica, a composição recebe Michaela “Micha” Tuomenoksa, do Without Warning, como vocalista convidada. Sua participação inclui partes solo, harmonizações e alguns diálogos com Esko, sempre relacionada ao conteúdo da música. Apesar do andamento, “Mercy” não segue exatamente o formato de uma balada. A intensidade varia durante seus cinco minutos, com piano, teclados e guitarras conduzindo a faixa até um encerramento mais elaborado. A presença de Micha poderia ser ainda maior, mas o encontro entre os dois vocalistas está entre os acertos do álbum.
“Ghostlike” retoma a velocidade com um dos melhores refrães do repertório. Há certo parentesco com o Kamelot nas orquestrações e no tratamento dado às melodias, mas a bateria e as guitarras mantêm a agilidade característica do Gladenfold, com muita melodia. A faixa também apresenta um bom solo de guitarra, inserido depois de uma sequência na qual os instrumentos acompanham as variações da linha vocal.
Entre os momentos mais particulares está a “powerzona” “Chaos Waltz”. A cadência de valsa sugerida pelo título aparece entre trechos rápidos, coros e partes sinfônicas, conferindo à música uma identidade própria. A banda não prolonga demais a ideia e resolve tudo em menos de quatro minutos. “Anthem of the Broken”, na sequência, retorna aos refrães de maior impacto, com a bateria assumindo participação importante nas sucessivas mudanças de andamento.
O encerramento fica por conta de “Soulbound Parallax”, a faixa mais “longa” do álbum, com quase seis minutos. Sua construção reúne guitarras pesadas, piano, trechos lentos e novas partes rápidas, além de algumas passagens próximas do Metal Progressivo. Em vez de repetir uma estrutura utilizada anteriormente, o Gladenfold reserva para o final a composição mais ampla do trabalho. As mudanças nem sempre são previsíveis e deixam a impressão de que esse caminho ainda pode render bastante nos próximos lançamentos.
Grande parte de “Soulbound” foi gravada nos estúdios domésticos dos integrantes. Toke Gerdts ficou responsável pela mixagem, Miro Kiiski realizou a masterização e Tomi Uusitupa cuidou da gravação da bateria. A produção possui a definição necessária para um disco com tantas camadas, embora em alguns refrães a concentração de coros, teclados e guitarras torne o resultado bastante carregado. Ainda assim, as melodias principais permanecem reconhecíveis e os instrumentos mantêm suas funções dentro dos arranjos.
A preferência pelos vocais limpos e pelo Power Metal sinfônico poderá dividir os admiradores de “Nemesis”. Em algumas músicas, a preparação dos refrães segue caminhos parecidos, e uma presença maior do Melodic Death Metal aumentaria a variedade. Por outro lado, o álbum tem pouco mais de 41 minutos e não abusa. “Helix of Hate”, “Mercy”, “Chaos Waltz” e “Soulbound Parallax” também ajudam a quebrar a sequência de composições mais diretamente ligadas ao Power Metal.
“Soulbound” registra uma mudança importante na discografia do Gladenfold. Não é tão agressivo quanto “Nemesis”, mas possui composições mais rápidas e um trabalho sinfônico melhor integrado às músicas. Ao chegar ao quarto álbum, o grupo demonstra saber dosar suas influências e, principalmente, saber quais aspectos deseja aproveitar de cada uma. Mesmo que a nova direção ainda possa ser aprofundada, o disco mostra uma qualidade absurda de uma banda que merece atenção bem maior fora da Finlândia. Sinceramente, espero que a banda siga neste foco ao Power Metal, pois é uma banda totalmente diferente de “Nemesis” e muito melhor. Que venha o próximo disco.
Adquira o álbum aqui:
https://www.lojashinigamirecords.com.br/p-9503763-Gladenfold—Soulbound

Maicon Leite atua como Assessor de Imprensa com a Wargods Press e é co-autor do livro Tá no Sangue!, e claro, editor do Arena Heavy!
Notícia mais antiga: EP de retorno do Laconist recebe ótimos reviews por veículos especializados no Brasil e no exterior »


