Flotsam and Jetsam coroa quatro décadas de história com o ótimo “Rats in the Temple”
Postado em 16/10/2026


Tenho insistido em minhas resenhas que uma discografia longa não deve ser julgada como se o artista tivesse a obrigação de repetir o álbum que o tornou conhecido. O Flotsam and Jetsam é um bom exemplo. “Doomsday for the Deceiver” e “No Place for Disgrace” são capítulos fundamentais do Thrash Metal norte-americano, porém representam somente o início de uma história bem maior. Na década de 1990, o grupo começou a buscar novos caminhos. “When the Storm Comes Down” manteve a complexidade rítmica dos primeiros trabalhos, embora já apresentasse um clima diferente.

“Cuatro” destacou a presença dos refrãos, dos andamentos mais “moderados” e das melodias, enquanto “Drift” avançou por terrenos ligados ao Hard Rock e ao Metal Alternativo daquele período. “High” recuperou parte da agressividade, e “Unnatural Selection” encerrou a década com timbres e construções mais próximos do Metal produzido no final dos anos 1990. Ou seja, foi uma década experimental, com seus altos e baixos.

Essas mudanças dividiram opiniões, mas também impediram que toda a carreira do Flotsam and Jetsam fosse orientada pela sonoridade dos dois primeiros discos. É o típico caso que sempre abordo: bandas atravessam fases, absorvem o período em que vivem e nem sempre seguem o caminho esperado por quem se apegou a determinada formação ou disco. Houve oscilações, escolhas certamente discutíveis e álbuns que receberam menos atenção do que mereciam. Isso não significa que o grupo tenha permanecido sem produzir bons trabalhos até a volta às origens perpetrada a partir de 2016. “My God”, “The Cold” e, especialmente, “Dreams of Death”, lançado em 2005, guardam composições que merecem ser revistas com mais cuidado.

O álbum autointitulado de 2016, entretanto, representou uma mudança perceptível. A banda pareceu se reencontrar, organizando novamente suas características mais reconhecíveis: riffs rápidos, melodias cortantes, refrãos fortes e a voz inconfundível de Eric A.K.. “The End of Chaos”, “Blood in the Water”, “I Am the Weapon” e a espetacular “Iron Maiden” (nada a ver com a Donzela de Ferro britânica de Steve Harris) deram sequência a essa recuperação. É nesse período que se encaixa “Rats in the Temple”, décimo sétimo álbum de estúdio do grupo e primeiro pela Napalm Records.

Lançado em 28 de agosto de 2026 pela Napalm e aqui pela Shinigami, o disco reúne treze músicas em pouco mais de 56 minutos. A parte visual, criada novamente por Andy Pilkington, mantém o estilo dos últimos discos, e a versão física que recebi é super caprichada e chega a ser nostálgico ler o encarte com os agradecimentos da banda, algo que se perdeu com a chegada das versões digitais.

A formação traz Eric A.K. nos vocais, Michael Gilbert e Steve Conley nas guitarras, Bill Bodily no baixo e Ken Mary na bateria. A produção foi dividida entre a própria banda e Ken Mary, com mixagem e masterização de Jacob Hansen. A permanência dos mesmos músicos dos trabalhos anteriores ajuda a explicar muita coisa, sobretudo nas mudanças de andamento e nas passagens em que as guitarras desenvolvem linhas diferentes antes de voltarem ao riff principal.

“Harvesting the Hate” abre o álbum com uma introdução cinematográfica, logo interrompida pela entrada da banda. O riff principal é veloz e a composição alterna trechos acelerados e passagens mais abertas para o vocal, chegando a um refrão grudento. A letra trata da propagação do ódio e dirige a responsabilidade ao próprio indivíduo, evitando colocar toda a culpa em uma figura externa. Há solos em profusão e muitos bumbos duplos. Belo início!

“Damnation” mantém a boa pegada, com o baixo aparecendo de maneira mais perceptível sob as guitarras. Eric A.K. utiliza registros médios durante boa parte da música e reserva as notas mais altas para momentos específicos. Essa escolha tornou sua interpretação mais variada do que seria uma tentativa de cantar o tempo inteiro como fazia nos anos 1980. Destaque para o baterista Ken Mary e os inúmeros riffs. “Absolution”, a faixa mais curta do disco, acelera novamente e apresenta uma das aproximações mais diretas com o Thrash Metal. São pouco mais de três minutos e meio conduzidos por riffs rápidos, viradas frequentes e um bom refrão.

Em “Blame the Knife”, as guitarras trazem algumas pausas e acentuações mais marcadas, criando uma música mais cadenciada. A letra apresenta um assassino que transfere para a arma a responsabilidade por seus atos, numa crítica bastante clara à recusa em admitir a própria culpa. Na sequência, “Rats in the Temple” reúne riffs quebrados, variações rítmicas, melodias de guitarra e uma interpretação vocal acima da média. Os ratos do título podem ser entendidos como pensamentos nocivos que se instalam, se reproduzem e passam a comandar as decisões. O desempenho de Ken Mary merece atenção especial: ele acompanha cada alteração das guitarras e ainda acrescenta pequenos detalhes nos pratos e nos bumbos. Uma das melhores do álbum!

A rápida “The Ghost Behind My Door” aproxima o Thrash do Power Metal norte-americano, com Eric A.K. fazendo um ótimo trabalho. “First on the Spike” vem em seguida com uma estrutura mais direta, marcada por um riff pegajoso e por uma bateria pujante. Não está entre as composições mais complexas do álbum, mas cumpre bem sua função dentro da sequência. Em “The Edge of Nowhere”, as guitarras de Michael Gilbert e Steve Conley recorrem a riffs ligeiros, com ótimas linhas de bateria. O estilo da música me lembrou um pouco os canadenses do Annihilator.

“Last Rites” segue na mesma pegada, com um festival de riffs e solos.  O baixo de Bill Bodily e a bateria de Ken Mary comandam a abertura de “A Taste for War”. O ritmo lembra uma marcha militar, escolha coerente com a posição contrária à guerra apresentada na letra. A ideia inicial é boa e oferece uma mudança importante dentro do álbum, embora o refrão não alcance a mesma força da introdução.

“Her Blood Your Pain” traz guitarras harmonizadas e uma ligação evidente com o Heavy Metal dos anos 1980. A influência de Iron Maiden pode ser percebida na maneira como as melodias se cruzam, mas o vocal de Eric A.K. e a bateria mais pesada mantêm a identidade do Flotsam and Jetsam. “Anthem for the Broken” trabalha com um balanço diferente e apresenta um refrão simples, voltado à participação do público.

“Not Goin’ Down That Way” encerra o álbum abordando novamente a mortalidade, agora sob a perspectiva de quem pretende enfrentá-la segundo as próprias escolhas. A faixa começa com riffs pesadíssimos, fechando o disco sem recorrer a uma longa sequência instrumental. A decisão combina com uma obra que já ultrapassa os 56 minutos e chega à parte final com quase todas as suas ideias devidamente apresentadas.

Eric A.K. continua sendo uma figura importante. A voz perdeu parte da elasticidade dos primeiros discos e adquiriu um desgaste que ele sabe utilizar, algo perfeitamente natural depois de quatro décadas e já com sessenta anos nas costas. Não é um trabalho fácil! Em “Rats in the Temple”, ele trabalha a favor dessas mudanças. Os tons médios passaram a ocupar uma parcela maior das músicas, enquanto os agudos são utilizados com mais parcimônia. Michael Gilbert e Steve Conley formam uma dupla entrosada. Há solos velozes, harmonias tradicionais e riffs inspirados. Bill Bodily recebe espaço para participar das introduções e transições, enquanto Ken Mary confirma sua importância na fase iniciada há dez anos. Seu trabalho não se limita a acompanhar as guitarras: várias músicas dependem da bateria para estabelecer sua personalidade.

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“Rats in the Temple” pertence à sequência aberta pelo álbum autointitulado, mas possui uma característica própria. A primeira metade concentra boa parte da velocidade e da complexidade, enquanto o trecho final se aproxima do Heavy Metal tradicional, dos andamentos menos acelerados e das harmonias de guitarra. No meio disso tudo há muita agressividade.

A distância entre “Doomsday for the Deceiver” e “Rats in the Temple” atravessa quatro décadas de mudanças. O Flotsam and Jetsam não precisa fingir que os anos 1990, 2000 e 2010 jamais aconteceram. Cada etapa deixou alguma coisa em sua maneira de compor. “Rats in the Temple” é um álbum variado, agressivo e melódico. Talvez não supere os dois primeiros clássicos — uma comparação que acompanhará a banda para sempre —, mas se coloca entre os bons trabalhos desta excelente fase iniciada em 2016.

 
Categoria/Category: Destaque · Resenha de Discos
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