
A trajetória do Exumer divide-se em duas fases bem interessantes. Na década de 1980, o grupo formado em Wiesbaden colocou seu nome na primeira geração do Thrash Metal alemão com os clássicos “Possessed by Fire” (1986) e “Rising from the Sea” (1987), encerrando as atividades pouco depois. Quando os fundadores Mem V. Stein (vocais) e Ray Mensh (guitarra) reativaram a banda em definitivo em 2008, optaram por priorizar o trabalho de estúdio em vez de viver apenas de nostalgia. Com a rotina dividida entre a Alemanha e Nova York — cidade onde Stein reside há décadas —, o quinteto construiu um catálogo contemporâneo consistente em “Fire & Damnation” (2012), “The Raging Tides” (2016) e “Hostile Defiance” (2019).
E eu poderia passar horas falando o quanto amo a banda. Meu primeiro contato com o grupo foi através de um bolachão do “Possessed by Fire”, e com o passar do tempo, cheguei a resenhar o álbum de estreia do Sun Descends, o excelente “Incinerating the Meek”, banda que Mem V. Stein criou nos EUA, cujo lançamento completa 20 anos, contando inclusive com uma versão para “Fallen Saint”, do Exumer. Na época, ainda entrevistei o vocalista para o site Metal Attack, além de escrever sobre o Exumer para a revista Roadie Crew e outros meios de comunicação. Sempre solicito, Mem V. Stein me enviou o CD do Sun Descends pelo correio e desde então, por algum tempo, sempre mantivemos contato. O ápice disso foi assistir a banda ao vivo em Porto Alegre ao lado do Artillery em 2012. Mais um sonho realizado.
Lembranças a parte, vamos ao que interessa. Lançado após um intervalo de sete anos desde “Hostile Defiance”, o novíssimo “Death Mask Messiah” (disponível no Brasil pela Shinigami Records) registra a primeira gravação da banda com sua nova cozinha: o baixista Alex Voss (que já tocava ao vivo com o grupo desde 2019) e o jovem baterista Jerome Reil, filho de Jürgen “Ventor” Reil, o famigerado baterista do Kreator. A entrada da dupla ao lado de Stein, Mensh e do guitarrista Marc B. (Marc Bräutigam) resultou em um disco enxuto e focado na velocidade. Em 42 minutos, o repertório alinha onze faixas curtas, quase todas na casa dos três a quatro minutos, sem introduções instrumentais ou gorduras nos arranjos. E a capa, como não deixaria de ser, traz a clássica máscara do Jason atualizada para os dias atuais, um ótimo trabalho assinado por Björn Goosses.
A produção de Dominic Paraskevopoulos e a mixagem assinada pelo super requisitado produtor norte-americano Arthur Rizk (que já trabalhou com Cavalera Conspiracy, Crypt Sermon, Power Trip e uma porrada de bandas) deixaram os instrumentos com uma sonoridade seca e na cara: as guitarras têm corte afiado, o baixo preenche bem os espaços nas mudanças de tempo e a bateria soa “estalada”, unindo a escola teutônica ao Crossover/Thrash da Costa Leste dos Estados Unidos.
Nas letras, Mem V. Stein amarra o repertório em torno da manipulação de massas, do fanatismo religioso e da desinformação na política recente. O vocalista toma o cerco de Waco, ocorrido no Texas em 1993, e a figura do líder sectário David Koresh como ponto central para retratar demagogos que exploram a fé e o medo alheio em busca de poder.
A faixa-título, “Death Mask Messiah”, abre o álbum apresentando esse conceito logo nos primeiros versos, conduzida por palhetadas rápidas e um refrão direto. Em seguida, “Blinding Skies” mantém a velocidade lá em cima, abrindo espaço para harmonias de guitarra mais melódicas durante o refrão e um solo matador de Ray Mensh. A sequência formada por “Sin Bleeder” e “Eradication” concentra o lado mais ríspido do disco: a primeira passa pouco dos três minutos em rotação máxima, enquanto a segunda aposta em levadas sincopadas e vocais de apoio gritados que evocam a escola da Bay Area, especialmente o Exodus.
Integrante do Exumer desde 2013, Marc Bräutigam teve participação ativa na escrita deste álbum, assinando a base de “Ravishing Waste” e “Frozen Ground”. A primeira delas destaca o duelo de solos entre Marc B. e Mensh sobre o pulso firme de Alex Voss; a segunda, posicionada na penúltima faixa como a composição mais longa do trabalho (quase cinco minutos), começa com um dedilhado tenso antes de alternar estrofes velozes e um refrão cadenciado.
O episódio de Waco volta a ser citado de maneira explícita na empolgante “Allocated Savagery”, que reconstrói o confronto armado entre o Ramo Davidiano e os agentes federais norte-americanos com ênfase para a pegada de Jerome Reil e na saraivada de riffs e solos. Na reta seguinte, “Serpent” reduz o andamento para investir em um riff mais arrastado, uma pequena calmaria antes da tempestade para que em seguida “Fratricide” e “Scorcher” retomem a agressividade veloz característica dos anos 1980.
Para encerrar o trabalho, o grupo presta tributo às próprias raízes com um cover de “Unchained Angel”, da banda norte-americana Nasty Savage, trazendo os vocais convidados do próprio Nasty Ronnie. O registro celebra a primeira turnê europeia do Nasty Savage, em 1988, que teve justamente o Exumer como banda de abertura. No fim das contas, “Death Mask Messiah” mostra um grupo veterano que sabe renovar sua energia interna, fechando um álbum agressiv, curto e sustentado por excelentes riffs e uma jovialidade eterna dos veteranos Mem V. Stein (vocais) e Ray Mensh.
Adquira o álbum via Shinigami Records:
https://www.lojashinigamirecords.com.br/p-9504228-Exumer—Death-Mask-Messiah

Maicon Leite atua como Assessor de Imprensa com a Wargods Press e é co-autor do livro Tá no Sangue!, e claro, editor do Arena Heavy!
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