
Produção: Overload, Abstratti Produtora e Opinião Produtora
Texto: Marcos Mendonça
Fotos: Henrique Haag
Na sexta-feira, dia 20 de janeiro de 2026, no Bar Opinião, em Porto Alegre, pudemos presenciar uma comemoração ao legado de uma das bandas mais influentes do death metal mundial, o Death. Não sou especialista no estilo, e as minhas memórias com a banda são da minha adolescência, quando comprei o CD do “Individual Thought Patterns” (1993) no início dos anos 2000 (quem é das antigas sabe o quão significativo era comprar um CD para compor a sua coleção), e o quanto posteriormente fui impactado pela qualidade técnica de “The Sound of Perseverance” (1998).
Como se trata da turnê Symbolic Healing, que comemora os 35 anos do álbum “Spiritual Healing” (1990) e os 30 do álbum “Symbolic” (1995), além da leitura do background do Death e de seu legado, fiz uma audição dos álbuns a serem comemorados para rememorar com intensidade os clássicos ao vivo junto com a banda. Levando em consideração a tradição do projeto e as experiências muito positivas da tour, que já está na estrada desde abril do ano passado, estava certo de que seria um show matador e não queria me sentir na obrigação de ter as melodias decoradas para ter a experiência de escutar os clássicos na íntegra como se fosse a primeira vez.
O Death to All é um projeto tributo ao Death e ao legado de seu criador, Chuck Schuldiner, montado em 2012, inicialmente em uma turnê beneficente organizada pela Perseverance Holdings Ltd (de Schuldiner) e pela Sick Drummer Magazine, visando arrecadar fundos para o Sweet Relief Musicians Fund, em apoio a músicos necessitados. É inegável o legado de Schuldiner para o heavy metal. A ele é atribuída a criação do death metal, e é trágico lembrar que nos deixou aos 34 anos, em seu auge de criação disruptiva, devido a complicações (fisiológicas e econômicas) de um tumor cerebral. É a terceira vez que a banda toca no Brasil, porém a primeira em Porto Alegre.
O line up principal inclui um trio muito especial (e técnico) de veteranos ex-integrantes do Death: o baixista Steve Di Giorgio (58 anos, que tocou nos álbuns “Human” e “Individual Thought Patterns”), o guitarrista Bobby Koelble (57 anos, de “Symbolic”) e o lendário baterista Gene Hoglan (58 anos, de “Individual Thought Patterns” e “Symbolic”). Une-se a eles o “jovem” Max Phelps, na guitarra e nos vocais (38 anos, ex-Cynic). É importante lembrar que Di Giorgio e Hoglan foram parceiros no Testament.
Em um Opinião com a pista cheia (mas não lotado, visto que o mezanino ficou fechado), sem banda de abertura e de forma pontual, os integrantes do Death to All subiram ao palco sob os gritos da plateia. E chegaram emplacando uma mistura de “Infernal Death” (“Scream Bloody Gore”) e “Living Monstrosity” (“Spiritual Healing”), que colocou a galera lá em cima, criando desde já um mosh pit.

O que mais chamou a atenção no início do show foi o carisma e a forma solta de tocar do baixista Steve Di Giorgio. Em um baixo Ibanez de sua assinatura, fretless de três cordas, a lenda esbanjou técnica e nos fez questionar como é possível um músico performar daquele jeito, com o baixo abaixo da linha da cintura, acertando todas as notas em um instrumento fretless. Já valeu o ingresso dos presentes!

Eu estava posicionado bem em frente à mesa de som e fiquei surpreendido com a qualidade técnica do áudio operado naquela noite: todos os instrumentos perfeitamente audíveis, muito bem equalizados, com bateria e voz em destaque na medida certa. Isso ficou bem perceptível na execução da próxima música, “Defensive Personalities” (“Spiritual Healing”). Um som pesado, com muita distorção, porém nítido, no qual é possível ouvir e perceber as habilidades técnicas dos músicos. Já havia recebido críticas no passado específicas à nossa tradicional venue em relação ao som em geral; entretanto, experiências tão boas quanto essa me fazem crer que a produção de áudio da banda e a operação da mesa são primariamente responsáveis pela experiência final.
Logo após, Steve Di Giorgio pega um baixo de cinco cordas (também fretless) para solar o início de “Lack of Comprehension” (“Human”), um clássico que fez o mosh pit aumentar e pegar fogo! E como é bom ver uma banda bem-humorada e alinhada entre si e com o público! Vale ressaltar como a dupla Steve Di Giorgio e Bobby Koelble agitou, circulou pelo palco, bateu cabeça e interagiu com o público, e ainda sobrou tempo para “incomodar” o vocalista/guitarrista Koelble, altamente técnico e preciso, solando com competência em sua guitarra Ernie Ball Music Man John Petrucci JP6, uma das guitarras que trouxe para Porto Alegre e que conseguimos identificar. Demais.

É Di Giorgio quem assume a interação falada com o público. Pegou o microfone e agradeceu a presença de todos, dizendo: “vocês poderiam estar em qualquer lugar, mas estão aqui apoiando o death metal, e eu amo vocês por isso!”. Ele até chegou a perguntar quem já havia assistido ao Death to All antes, mas não se deu conta de que era a primeira vez da banda em terras porto-alegrenses. Por isso, já emendou um “quem vai vir de novo na próxima vez?”, e a galera respondeu com animação. Também deixou claro que estavam ali para honrar o legado de Chuck Schuldiner, tudo o que ele escreveu e imaginou, e que privilegiariam os álbuns homenageados. Dito isso, emendou “Altering the Future” (“Spiritual Healing”) e “Zombie Ritual” (“Scream Bloody Gore”).
Em um determinado momento do show, um fã levantou um cartaz escrito CHUCK LIVES! (Chuck vive!), que chamou a atenção de Di Giorgio, pedindo para a galera reparar e gritar junto “Chuck! Chuck! Chuck!”. Na sequência, luzes mais intensas foram projetadas no palco para a execução de “Within the Mind” (“Spiritual Healing”), “The Philosopher” (“Individual Thought Patterns”) e a faixa-título “Spiritual Healing” (“Spiritual Healing”).
A empolgação de Di Giorgio era tamanha que, em uma das pausas, largou a seguinte pergunta: “Tão vivos, gaúchos metaleiros?”. E a galera foi à loucura: “Steve! Steve! Steve!”. Ele seguiu interagindo com o público, falando dos 30 anos do álbum “Symbolic” (1995) e, entre risos, perguntando: “Onde vocês estavam quando o Symbolic foi lançado?”. Disse que iriam tocar o álbum na íntegra, ressaltando que nem na época do lançamento do disco ele foi executado por completo, e que aquela seria a primeira vez. Ao questionar qual seria a primeira música a ser tocada, a galera mostrou que era fã demais e devolveu: SYMBOLIC!!!
Quero fazer um comentário especial sobre a qualidade técnica do vocalista e guitarrista Max Phelps. Impressionante sua qualidade vocal, cantando no mesmo estilo de Chuck, com um timbre um pouco mais agudo, mas de uma semelhança técnica absurda. Uma voz gutural, com screams técnicos e nítidos, a ponto de conseguirmos tranquilamente acompanhar a letra enquanto o ouvíamos. Sem contar a qualidade como guitarrista: implacável, sem erros, em total respeito aos timbres e às formas de tocar originais, provando que a fama que vem recebendo faz todo sentido — no palco, é o Schuldiner encarnado. Em comparação aos demais, interagiu menos com o público, mas nos momentos em que pediu para a galera vir pra cima, foi prontamente correspondido.

Do “Symbolic”, seguiram a faixa-título “Symbolic” (“Symbolic”), seguida de “Zero Tolerance” (“Symbolic”), “Empty Words” (“Symbolic”), “Sacred Serenity” (“Symbolic”), “1.000 Eyes” (“Symbolic”), “Without Judgement” (“Symbolic”). Symbolic é um álbum extremamente técnico musicalmente falando, e foi um privilégio ver Gene Hoglan tocá-lo ao vivo. Ambidestro, com um prato de condução em cada lado, tocando com alta precisão sons muito rápidos, parecendo não fazer nenhum esforço, dançando com a cabeça e conduzindo a banda de forma primorosa. Vários fills do Symbolic são sua assinatura, e perceber sua técnica foi uma verdadeira aula. A sensação de satisfação musical foi tamanha que fiquei imaginando um disco ao vivo desta turnê. Antes de “Crystal Mountain” (“Symbolic”), Di Giorgio ainda fez uma pausa e agradeceu a “sick comradery” (camaradagem foda) de todos. Na sequência, fecharam o álbum com “Misanthrope” (“Symbolic”) e “Perennial Quest” (“Symbolic”) e se despediram da galera.
Aos gritos de bis do público, a banda voltou para executar “Spirit Crusher” (“The Sound of Perseverance”) e “Pull the Plug” (“Leprosy”), que contou com a cantoria da galera nas melodias e um mosh pit de tamanho dobrado, colocando toda a energia possível no palco!
O Death é uma banda icônica não apenas pelo pioneirismo técnico e musical, mas também pelos temas abordados em suas letras, por vezes introspectivas sobre sentimentos e comportamentos humanos, por outras, críticas à sociedade em que vivemos. O fato de muitas músicas de “Symbolic” seguirem tão atuais em suas palavras mostra o quão relevante e genial Chuck Schuldiner foi para o heavy metal, e, por essa experiência, tenho certeza de que quem esteve no show saiu muito grato. Saí do Opinião como um fã renovado do Death, com vontade de ouvir toda a discografia novamente e mergulhar nas técnicas, temas e letras da banda. É o melhor sinal de que a apresentação de Di Giorgio e seus companheiros foi eficiente e contagiante.
São shows como esse, implacáveis e que agitam a galera, que mostram que o heavy metal é maior do que qualquer subgênero ou nicho. São momentos como o que o Death to All entregou pra nós que nos fazem acreditar na cena e atender ao chamado coletivo para que continuemos saindo de casa, trocando entre os pares, prestigiando as bandas e curtindo boa música, não importa de qual estilo ou época. Chuck Lives!
Setlist:
1. Infernal Death (Scream Bloody Gore)
2. Living Monstrosity (Spiritual Healing)
3. Defensive Personalities (Spiritual Healing)
4. Lack of Comprehension (Human)
5. Altering the Future (Spiritual Healing)
6. Zombie Ritual (Scream Bloody Gore)
7. Within the Mind (Spiritual Healing)
8. The Philosopher (Individual Thought Patterns)
9. Spiritual Healing (Spiritual Healing)
Symbolic (na integra):
10. Symbolic
11. Zero Tolerance
12. Empty Words
13. Sacred Serenity
14. 1.000 Eyes
15. Without Judgement
16. Crystal Mountain
17. Misanthrope
18. Perennial Quest
Bis:
19. Spirit Crusher (The Sound of Perseverance)
20. Pull the Plug (Leprosy)

Colecionador de discos, apaixonado por shows e colaborador do Arena Heavy!
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